quarta-feira, 27 de julho de 2016

Entretenimento

Embora não tenha sido por opção, em casa já não tenho televisão nem computador. Apenas um rádio, meia dúzia de discos que não interessam a ninguém, livros, papel, um lápis de carvão e canetas. Quando o miúdo chegou, deitei as mãos à cabeça. Nem os guaches e os lápis de cor tinha, sequer a bola de futebol e os livros cheios de desenhos e fotografias. Como é que o haveria de entreter? Foi simples: deixei-o estar. Em pouco tempo, a máquina de costura era um monstro, a fita métrica um caracol cheio de números, o guarda-roupa um berço para meninos grandes, os meus discos a banda sonora de histórias improvisadas mediante a melodia. Sem distracções, a este miúdo, que se alimenta como se comer fosse castigo, até a melancia pareceu  interessante e apetecível. Pouco fiz. Cada vez mais me convenço de que não forçar a infância é a única forma de a respeitar.