quarta-feira, 27 de julho de 2016

Esquisitices

Há de ser universal: quando eu tinha uns doze ou treze anos, uma senhora viu beleza nas minhas mãos; a outra que lá estava não achou justo: tem as mãos bonitas porque não faz nada em casa! Daqui a uns anos é que se vai ver. Foi a mesma mulher que. aquando do meu décimo oitavo aniversário, me chamou para me dizer - como quem quer estragar alegria - quando deres por ti, estás nos trinta. Continuou: eu com a tua idade também era muito jeitosa, mas o tempo passa e tu vais ver como vais ficar. Exemplificou arregaçando a saia e exibindo as coxas colossais esburacadas de celulite. Achei sempre divertido. Quando a minha anca começou a alargar, uma menina da minha idade que nunca chegou a fazer-se mulher veio chamar-me defeituosa. Hoje as minhas mãos não sofrem com as lides domésticas e o meu corpo, que muda - e bem - com a idade, continua a servir o seu propósito: abrigar-me e levar-me onde é preciso. 
Quando havia festas, iam às seis da manhã para a cabeleireira, pôr pinturas e penteados carnavalescos. Já eu apenas demonstrava falta de gosto por aparecer nos restaurantes, independentemente da ocasião, de cara limpa e cabelo ainda molhado. Neste problema muitas outras mulheres repararam. Numa determinada empresa por onde passei, as minhas colegas achavam-me pálida e moribunda, e perguntavam-me frequentemente se estava doente ou se tinha dormido mal. Entendia-as: se passasse muito tempo a olhá-las e a seguir me visse ao espelho, também aos meus olhos parecia translúcida. Um dia, uma disse-me:
- Só me maquilho porque preciso. Se não me maquilhar, fico como tu: com esse ar de doente, de defunta. - Olhei-a, vi que naquela frase não havia maldade, apenas franqueza. Soltei uma gargalhada - ainda hoje gosto de contar essa história, faço sempre o interlocutor rir - e agradeci ironicamente. - Não me leves a mal, eu sou mesmo como tu. Tenho a pele pálida e sem cor. 
Sem cor significava apenas cor de pele. Lábios vermelhos como pimentos, só se sangrar; roxos, só se apanhar muito frio. Se algum dia me achasse de pálpebras verdes ou azuis, ficaria alarmada. E bochechas rosadas, só depois de um bom copo de tinto. Parece-me justo. 
Certo dia, uma colega que tinha estado de baixa devido a uma gripe, veio ter às casas-de-banho para se lamentar do fraco aspecto. A cara estava inchada como quem acabara de acordar e o cabelo era surpreendentemente ondulado se ela não o domesticasse. Depois lá esclareceu: é que não tomei banho antes de vir para aqui. Preciso de me maquilhar. Rica solução. Logo se apressaram a polvilhá-la com - jamais esquecerei - uns pós a que chamaram tons terra. No fim, perguntou-me se estava bem. Não sabia o que dizer, não queria ofender nem mentir; respondi-lhe então estás com mais cor. Serviu. Então ela olhou-me de perto e disse:
- Tu é que tens sorte, não precisas de te maquilhar.
- Tu também não, nem de te maquilhares nem de esticares o cabelo. 
Achou graça e concluiu a conversa: foste sempre muito esquisita. Eu?