segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A festa, o amor e a coragem

Numa dessas vilas portuguesas que ninguém lembra, um jovem casal encontrou a festa mais triste de que havia memória – gente em peso na rua sem que motivo se encontrasse: a lagoa passava despercebida a quem passava e nem o carnaval de atrações do costume marcava presença. Funeral sem sacrificado? Motim sem raiva? Que seria? Deram meia volta para encontrar destino que prestasse e estacionaram o carro no meio das dezenas já aparcadas enquanto procuravam a resposta.
Aproximou-se um outro casal, em passo largo para a velhice. O homem, gordo e grisalho, antecipando exaltações apenas inventadas por si, apressou-se em direção ao seu carro topo de gama e pô-lo a trabalhar ainda antes que a esposa tivesse tido tempo de abrir a porta e ocupar o lugar que lhe cabia. O primeiro casal recolocou os cintos e aguardava que a procissão de carros na estrada permitisse a manobra; pois o senhor, ávido de qualquer emoção em falta no seu quotidiano, iniciou a marcha-atrás furiosamente, esgueirou-se pelos carros sem vagar ou prudência e, antes de ir à sua vida com a rapidez dos fugitivos, gritou ao jovem condutor:
- És mesmo filho da puta! – A esposa discutiu, de nervos esfrangalhados. É coisa que se diga? O jovem, querendo testar a coragem dos que atiçam e abalam, pôs a viatura em marcha, encostou-lhe a frente e gritou:
- Encosta o carro, vamos conversar. – O homem, com idade para ser pai daquele que pretendia ofender, pôs a mão de fora, mostrou o dedo do meio e assim ficou, provocando mas sem vontade de frentes-a-frentes. A perseguição continuou por uns minutos, o homem de peito cheio e mão de fora, a mulher num frenesim pedindo ao esposo que parasse com o disparate, o jovem esticando a cobardia do agressor, a jovem em silêncio à espera do desenlace.

Aconteceu o óbvio: tirada a evidente conclusão de que quem insulta e foge não há de parar, os mais novos foram desfrutar da sua juventude para longe; os mais velhos seguiram na mesma estrada, por onde e como o homem entendeu, sem que a outra metade da resignação tivesse voto na matéria.