quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pregar

Simone era estudiosa, perspicaz, de humor acutilante. Convicta de tudo, até daquilo de que duvidava, envolvia-se em acesos debates - sobre tudo e sobre nada. Escolheu uma causa e por ela se bateu e continuará a bater, e foi esse o alimento que lhe deu força para percorrer cada um dos caminhos eleitos. Fixando as armas na moldura política do que pretendia vencer, nada mais fez: porque não importa, não resolve nada, isto é um problema político. Quando chegava a altura de ir às urnas, no entanto, clamava que tudo é político, que é urgente votar e perceber o porquê do voto, que até o preço do pão é político. Simone era leal, há de morrer leal, há de erguer a bandeira que adoptou até ao seu último suspiro. Mas se, nesses últimos instantes, lhe perguntarem o que fez ela pelo seu ideal, ver-se-á forçada a responder que dedicou toda a sua vida a convencer os demais de que o problema é político. Justificará: enquanto não houver um entendimento massivo de que o problema é político, não adianta fazer nada. Ninguém lhe fará mais perguntas, porque debater sobre tudo nem sempre apetece e debater sobre nada rouba tempo que foge. Mas se ousassem perguntar-lhe mais do que isto, seria era esta a minha aposta: quem é que ficará convencido por vós, se vos veem fazer igual? quem é que se juntará ao combate se, em vez de mostrarem, contaram como devia ser? 
A minha causa é a da palavra. Mas por mais fé que lhe deva e guarde, não esqueço o gesto. Só a dança fará diferença.