sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A causa e a coisa

Disse há tempos Bárbara Bulhosa que esta geração de escritores não é assim tão extraordinária: não há um conjunto de génios a produzir - seja na literatura, na música, ou nas belas-artes. Lembrei-me disto a propósito de um estudo que se fez para apurar os efeitos da retirada dos calmantes tecnológicos aos jovens. Comecei a ler o artigo cheia de esperança, julgando que o efeito imediato seria o advento de uma tremenda e adormecida criatividade, o repentino pulsar de uma paixão desconhecida, fome de aventura, auto-análise profunda. Enganei-me: ansiedade descontrolada, inquietação, pensamentos suicidas. Só três dos sessenta e tal jovens é que aguentaram a experiência até ao fim. Abortado o experimento, voltaram a conectaram-se virtualmente com o mundo. Tudo acalmou. Recordo-me de uma rapariga que, durante anos, aproveitou a mágoa e a solidão para escrever abundantemente, que se desligou de si por força das circunstâncias e que, após um só dia inteiro sozinha, numa cidade onde não conhecia ninguém e sem acesso a nada a não ser as ruas e os livros, chegou a casa sem fôlego e com ideias para um romance.