sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A culpa é das mulheres

Um médico de meia-idade, além de machista, considera que o pequeno negócio da esposa é coisa sem valor. Chega a casa primeiro que ela, acomoda-se no sofá e espera pelo jantar. Num dia menos bom, a esposa perdeu a paciência e, sem passar pela cozinha, foi sentar-se à sua beira. Então e o jantar?, perguntou ele. A mulher vai contando o episódio e desabafa as dificuldades de educar os seus rapazes para não serem como o pai. As outras mulheres ouvem e vão metendo pelo meio as suas próprias histórias, o meu faz tudo!, deixa lá que lá em casa também tenho um desses, era o que me havia de faltar aturar isso. Tentam chegar a um consenso, perceber os porquês, arranjar soluções; finalmente desvendam o mistério: a culpa é das mulheres, que não sabem educar os homens. Nós é que lhes facilitamos a vida, diz uma, nós é que os habituamos mal, concorda outra. Como se não bastasse o resto, têm agora o rancor pelas sogras que não educaram os filhos como deve ser, e por si próprias por não terem quebrado o ciclo. Nisto tudo, saem os homens como eternos coitados: não conseguem cozinhar, não conseguem limpar, não conseguem cuidar dos filhos, não conseguem conter impulsos, não conseguem entender sentimentos e agora também não conseguem pensar. Para sempre filhos de todas as mulheres, vão subindo na vida, chegando onde querem e dispensando o que não lhes apetece. Atrás, as mulheres: dissertando sobre a culpa, limpando-lhes as migalhas, as botas e o cu.