segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Encargos

Os pais de Joel eram gente séria, sem dívidas e sem tento na língua. Cozinhavam ambos maravilhosamente e disso fizeram negócio ambulante, dando de graça a quem entendiam. À custa de tanto e tão árduo trabalho, foram amealhando mais do que os comuns mortais. Berravam muito, sem que o berro significasse raiva. Criaram dois filhos como puderam, sem estudos e muita labuta. Maria e Manuel, seus vizinhos e adolescentes apaixonados, entretinham-se nos intervalos do namoro a dar colo aos pequenos. Quando Joel cresceu, encontrou amor numa rapariga e com ela casou e teve filhos. Sentindo que era hora de pôr o seu nome numa casa, correu à procura de fiadores: Maria e Manuel, já de romance maduro, com filhos e responsabilidades. Disseram que não. Sabiam que Joel se tinha tornado em homem de fraco carácter, de feitio atravessado. Face à recusa, o pai de Joel fez o que fazem os pais pelos filhos: sem olhar às fraquezas do primogénito, por ele lutou; assumiu responsabilidade que não era sua e foi ele próprio pedir ao casal, que conhecia e respeitava há tantos anos, que reconsiderassem. O pai de Joel, como dito, era gente séria - Maria e Manuel assentiram finalmente. 
Muitos anos se passaram. Os pais, à custa de assumirem responsabilidades que não eram suas, perderam tudo e tiveram que recomeçar. Joel e o irmão não se importavam, acreditavam em direitos sem encargos. Um dia, Manuel e Maria receberam uma carta dando conta de falhas impróprias para gente séria: dívidas sem razão de ser, atrasos nos pagamentos, penhoras. Joel e a esposa bateram-lhes à porta, depois de tantos anos de silêncio, e com estranha familiaridade se sentaram no sofá e discorreram as suas mágoas. Choraram dificuldades, como vítimas de inevitabilidades, e anunciaram falência. Feito o discurso, despediram-se com atenciosos cumprimentos e foram fazer vidas desafogadas para longe. Maria e Manuel, que nunca tinham ficado a dever a ninguém, que tinham criado dois filhos com modéstia não por penúria mas por princípio, que nunca tinham tido razões para deixar que a vergonha os dobrasse, ficaram com as incumbências. O pai de Joel há de se chegar à frente, há de matar a vergonha com trabalho. Maria e Manuel, sem culpas mas sem saídas, não tiveram outro remédio senão hipotecar a casa onde criaram os filhos. Joel e a esposa passeiam de queixo erguido. Conta a mãe que a vida lhes corre bem. Talvez por isso não tenham tempo, quando a ocasião surpreende, para olhar nos olhos as pessoas que desgraçaram.