quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Incêndio

Falava pomposamente da fazenda que deixou no país natal, e todos os seus detalhes lhe pareciam obra de arte. Ao aperceber-se de que entre os sentados à mesa estava uma vegetariana, resolveu espicaçar:
- Então não comes animais porquê? - A rapariga hesitou antes de responder, já antecipando que a causa da pergunta não era ingénua curiosidade:
- A verdade é que vi um documentário sobre o que passam os animais e fiquei a sentir-me mal com isso... E também por uma questão de saúde...
- Mas os animais também se alimentam de outros animais, é a lei da vida. 
- Eu compreendo, não condeno quem come animais, eu é que prefiro... - Vendo que não haveria grande debate, principiou a descrever, por puro lazer, os momentos em que matou animais na adorada fazenda. Explicou como degolava os cordeiros, a posição em que tinha que os segurar para eles não escaparem, a reacção do pai, que se atrapalhava e só estorvava. Contava tudo com muito gosto, a olhar a vegetariana que se esforçava por passar despercebida. A esposa ia fazendo sorrisos amarelos, também ela não lhe achava piada, mas já devia ter passado o tempo em que ainda se importava. Quando se cansou de falar da fazenda, começou a descrever os seus planos de riqueza: estava no estrangeiro porque tinha ambições. Quando a mulher, talentosa cozinheira, lhe confessou que gostaria de abrir o seu próprio restaurante, ele deu-lhe uma descompostura: que falta de objectivos, que falta de ambição! Já ele, ia dominar a língua estrangeira para poder ingressar numa boa universidade, juntar umas boas dezenas de milhares de euros e regressar à terra para construir moradia a pronto pagamento. Pouco interessava que, tanto tempo depois da chegada, ainda não soubesse o rosa rosae lá do sítio e que, para acalmar a solidão e a saudade, estourasse quanto recebia em recheios para a casa que depois exibia às visitas. Claro que as visitas não podiam tocar - ver é com os olhos! - tal como não podiam sentar-se à vontade no caríssimo sofá, ou pegar no comando da televisão sem um planeamento prévio. Se é para comprar, é para comprar bom e para inglês ver. Do alto do seu conforto, dava com uma mão para tirar com a outra, e palestrava quer os ouvintes fossem voluntários ou não. A mulher sabe disto tudo, mas ai de quem lho diga: falar mal, falo eu, não os outros. Pois se fossem os outros, o despeito tomava-lhe o coração e logo corria em salvação do seu desleal amado: ele dá tudo, ele paga jantares aos amigos, ele deixou cá ficar não sei quem e até lhe deu uma chave, ele trabalha, ela é boa pessoa. Ouvindo-a dá ideia de que o principal esforço é convencer-se a si própria. Quando, muito antes de este casamento se assemelhar a um beco sem saída, lhe perguntaram: ama-lo? é Ele?, ela não respondeu, antes começou a descrever como se entendiam bem nas lides domésticas da casa. Parece que ninguém viu nisto mau presságio. Mas talvez não faça mal. Onde nunca houve faísca, não haverá incêndio.