quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Revelação

Diz a viúva que o falecido só se fez homem depois de ter voltado do país que o acolheu como imigrante. Antes disso, estalos, socos, insultos, ciúmes, raiva, desespero de se impor e mostrar. Quando regressou de vez, de horizontes mais amplos e de ânimos sossegados, passou a reunir a família à mesa com rara solenidade e exigia o respeito com que passou a tratar toda a gente. Conversava pausadamente, reflectia antes de falar, lia e perguntava. E quando a mulher, que até ao fim há de remoer mágoas passadas, lhe lembrava as dores infligidas, ele compreendia e desculpava-se: eu sei, mas as coisas agora estão diferentes, eu estou diferente. E é facto que desse primeiro homem nunca cheguei a ter vislumbre. Quando, anos antes de morrer, deixou de ser dono do seu corpo e passou a depender de engenhocas para respirar, contou o que fez: adaptei-me, é assim a vida. Não podendo viajar pelo seu próprio pé, comprou um computador, pediu que lhe ensinassem o que fazer, ligou-se à internet e passeava com a ajuda dos mapas virtuais e dos vídeos. Nunca lhe ouvi lamúrias, queixas de má sorte, pedido de esmolas. Morreu velho, cheio de memórias que o envergonhavam, fracturado porque reconstruído e em paz. Não sei se mudou ou se se revelou, como diz o senso comum. Mas pelo caminho, ainda que eu o ignore, achou a dignidade, a única companhia no leito de morte.