quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Tristeza

Carlota era daquelas que não necessitava de afinidade ou contexto para contar das suas dores. Uma dúzia de desconhecidas ficou a saber, sem que tenham perguntado sequer em pensamentos, que Carlota sofria de uma terrível depressão, que tomava vinte calmantes por dia, que os seus amores haviam falhado e que estava de coração partido. Todos os dias aprofundava alguma intimidade sua, já que tinha gente à volta. Usava vestidos até aos pés, muito largos, de cores berrantes, com cheiro a mofo e cheios de manchas. Finalizava os visuais com chapéus escuros, de enormes abas. Um dia, pintou muito a cara e perguntou a todas mal chegou: estou linda, não estou? Todas disseram que sim, enchiam-se de pena dela, e continuaram o trabalho. Carlota ficou contente. 
Certa tarde, vendo no comboio uma colega sua, a uns metros de distância, torceu-se na cadeira e virou-se para trás, para a poder olhar de frente. Puxou conversa, bem alto e para que todos ouvissem: 
- Então, está a gostar do trabalho que temos feito? - Os restantes passageiros, curiosos, torceram-se também para poderem ver quem recebia a mensagem. 
- Sim. - E um sorriso amarelo de desconforto por tanta atenção.
- De que é que está a gostar mais? Não acha a directora espectacular? E aquela pintura que fizemos? - Rejubilava de vaidade, todos seguiam a conversa, ávidos de mais pormenores.
- Sim, sim. Estou a gostar muito. - A colega não estava tão empolgada pelo púlpito que lhe inventaram. 
- Qual é a sua técnica preferida? - Carlota ia forçando, não queria perder aquela oportunidade.
- Hum, gosto do giz... 
- Eu adoro pintura desbotada! Estou a adorar tudo. Faz-me bem, sabe? Faz-me bem à cabeça, ao coração... Não estou a passar por um momento fácil, como sabe, e quando venho para aqui fico logo com outra disposição. É muito bom. Sabe, por causa da depressão, dos calmantes... - Numa guinada imprevisível, e tudo enquanto sorria, agarrou de vez os passageiros. Carlota, chegada à estação, saiu triunfante, com muitos votos de boa tarde e boa noite e até ao dia tal. A colega, que já mal falava - também já não era necessária -, passou a ir a pé para casa.