sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Polivalência

Diz-lhes que terão que ser polivalentes se quiserem sobreviver no mercado: não se convençam de que só porque são contratadas para desempenhar a sua profissão, poderão cruzar os braços quando lhes pedirem mais. Não senhor: és padeira, mas vais ter que deixar o teu serviço para servir às mesas; és operadora de caixa, mas se for preciso arrumar o armazém é fechar o bico e obedecer; és vendedora de casas, mas se tiveres que lhes pintar as paredes há que arregaçar as mangas. Argumenta com todos os casos que conhece de gente que foi "testada", "posta à prova" e que conseguiu vencer e ser agraciada com um contrato e um ordenado. Elas ouvem e dizem que sim, claro que sim, quem não sabe?, temos que ser despachadas, desenrascadas, fazer de tudo um pouco, dar cartas, mostrar serviço. Pergunto-me se diriam o mesmo se, em vez da cardiologista, chamassem uma psiquiatra para lhes operar o coração; se fosse a secretária e não a engenheira a projectar a ponte por onde passam todos os dias; se a professora dos filhos deixasse de lhes dar aulas para ir limpar as casas-de-banho; se, enfim, em vez de deus viesse o diabo. Depois de exercitarem a polivalência com uma perna atrás das costas, hão-de se refastelar nos sofás e lamentar, enquanto jantam a ouvir os pivots de telejornal, que realmente neste país é só incompetentes. Nada: versáteis, não é?