sábado, 15 de outubro de 2016

Santas e pecadoras

Os olhos de ambas brilham, húmidos de água benta, de tão santas e comovidas. Ai, as pessoas com necessidades especiais, os cancerosos, os pobres, os moribundos... tão maravilhoso é ajudá-los! Garantem que não há sentimento igual, derretem-se com o choro de gratidão, com a voz pedinte e com a fraqueza e o desamparo. É uma forma belíssima de ocupar o tempo livre, e no fim regressam a casa tão felizes! Contam que não há nada que as realize desta forma, nada se compara à grandeza de dar esmola. Por isso, quando alguém diz os deficientes, doem-se muito, porque todas as histórias lhes pertencem agora, fazem parte do clube, com a vantagem de poderem virar costas quando querem e seguir para outros caminhos - como, aliás, seguiram. Mas isso não importa. Já ganharam o seu lugar no paraíso, já têm histórias - que não lhes pertenceram jamais - para contar, e terão sempre esse trunfo na manga para atirar sobre a mesa quando alguém lhes disser que não são assim tão boas. E, mais importante, têm marcado no coração o sabor da fortuna, do privilégio e da boa sorte. Ainda bem que há miséria, é tão maravilhoso!