quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Corpo humano

Lembro-me agora de uma chefe que tive que me tratava mal e que frequentemente desprezava a minha inteligência: pensa! pensa!, quando lhe fazia uma pergunta. Na verdade, volta e meia reconhecia-me mérito intelectual e, para casar as contraditórias opiniões a meu respeito, concluía: enches o teu cérebro com coisas sem interesse e o que importa fica para trás. Não lhe sabia explicar que era cansaço, desconcentração, que não era inaptidão cognitiva. Também não sabia explicar a ninguém como é que eu, que tanto adorava ler, por vezes perdia uma manhã inteira a tentar ler um parágrafo e acabava por faltar a exames por causa disso. Ou como é que durante a condução por vezes me falhavam pormenores que eram óbvios para todos os outros. Ia à farmácia pedir drogas que agilizassem o meu raciocínio e a minha capacidade de concentração mas foi sempre sol de pouca dura. Será a ansiedade? Será sono a menos? Será que é por não amar o que estou a fazer? Talvez precisasse de mudar de vida, de virar costas a tudo e procurar outros caminhos. Não. Afinal é apenas hipotensão crónica, mas só metade do corpo desmaia. Tantos anos a treinar o palato para apreciar os alimentos por aquilo que eles são e afinal os pedidos eram outros. O corpo é que sabe. O corpo é que paga.