quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Esforços e encargos

Desde que comecei a sair de casa demasiado cedo e a chegar demasiado tarde, tenho sido alvo de curiosidades. Como é que durmo, como é que almoço, como é que janto, como é que mantenho a casa em ordem, será que passo os fins-de-semana como uma escrava a preparar a semana seguinte, e por aí adiante. Além de perguntas, também sou alvo de agoiros e péssimos pressentimentos: a minha vida há de ficar uma desgraça, sem qualidade, divertimento ou descanso, não hei de resistir muito tempo, o mais provável é que no fim se veja que nada ficou bem feito e que todo o meu esforço terá sido em vão. Na verdade, não fossem as saudades de casa e de quem a partilha comigo, estaria tudo mais que bem. Tudo o que precisa de ser feito é feito, com mais ou menos tempo para engonhar, e há sempre tempo para o que importa.
Depois dessas perguntas, surge a preocupação com o homem com quem vivo: como é que ele come agora que não estás? Deixas a comida dele no congelador ou fazes quando chegas à noite? Então? Ele tem que ir comer fora? Estivesse acompanhada de gente vinda de terras de outros costumes e presumir-se-ia que me apaixonei por um enfermo, um desgraçado que votei ao abandono e que, por muita vontade que tenha, não encontra meio de se valer a si próprio. Ainda não experimentei ficar espantada com a pergunta, respondo naturalmente e recebo em troca uma expressão de surpresa e agrado. Dizem-me que tenho muita sorte, que é bem bom que me tenha calhado um que se desenrasca, que vai fazendo as suas coisinhas e que me ajuda. Não fico ofendida, não fico cheia de vontade de gritar o feminismo, como se fosse evangelho que pudesse pregar, nem me regozijo com as considerações alheias acerca da minha boa fortuna. Acho graça. Tem a sua piada que me presumam senhora dos meus iguais e que vejam no meu esforço o encargo dos outros. A propósito disto.