quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Regresso

Regresso ao José Mattoso para recapitular o princípio. Em pouco tempo, a mente fervilha e o corpo esquece que, lá fora, tudo arde.
Leio sobre o clima e pergunto-me durante quanto mais tempo serão válidos os ensinamentos acerca do assunto. Leio sobre a indústria têxtil, tão velha e persistente, e espreito os meus fios de lã. Leio sobre a pobreza do solo português e a sua fraca vocação agrícola e duvido, enquanto espreito as árvores de fruto que há tantos anos rasgaram a terra preta. Leio sobre as casas de pedra e de taipa e reparo no muro irregular de pedregulhos pegados uns nos outros. Penso nos meus fios de algodão, nos panos de linho, nas sementes que ficaram depois de devorar os pêssegos, nas paredes de pedra pobre da casa. Tento voltar ao começo. Cresci no meio dos piores presságios, convencida de que teria que inventar qualquer coisa grandiosa para subsistir. Mas vejo que não: invenções grandiosas servem (será que sim?) para dar alimento à imaginação. Para subsistir, não invento - descubro. Hoje procuro as respostas como quem busca um tesouro enterrado - velho e esquecido, mas de esplendoroso valor.

Agosto de 2016