quarta-feira, 19 de abril de 2017

Onde foi a poesia?

Depois de uma vida a sofrer tanto as alegrias como as tristezas, a achar poesia em tudo quanto era lugar e a reparar no que me rodeava com lentes mais fortes do que os meus olhos aguentavam, alguma coisa se calou. Vivo sossegada, sem grandes exaltações, durmo bem e tenho saúde como nunca antes. Das minhas alegrias, fazem parte coisitas quotidianas como o bom tempo, que seca a roupa depressa. A tragédia já não me parece poética e sofrível, mas engraçada. De tanto rir para espantar males, aprendi a procurar o absurdo e o risível. Foram-se os poemas, veio o contentamento. Lembro-me de uma prece que já não sei onde ouvia: deus nos livre da mediania. E lembro-me de um lamento que ouvi há muitos anos sobre a vida ser uma chatice:
- Olha aquela mulher que vem a passar, por exemplo. - E era uma mulher jovem mas gasta, de fato-de-treino e cabelo mal amanhado, carregando sacos de mercearias. - A vida dela deve ser miserável também.
E eu achei uma parvoíce e retorqui que se espera demais da vida, que a vida não tem que ser épica, grandiosa, espampanante, que ser feliz pode ser só ir comprar mercearias com pessoas de quem gostamos. Ia dizer que estou bem, mas que tenho saudades da poesia. Ocorreu-me mesmo agora que se calhar rir e reparar na mediania também pode ser poema.