quinta-feira, 27 de julho de 2017

A propósito de destrambelhar

Pergunta-se, enquanto empurra um carrinho no supermercado ou arranja o cabelo no cabeleireiro, se as outras mulheres não estarão todas, em maior ou menor grau, a pensar a mesma coisa: aqui está o espírito brilhante, a mulher de mágoas, a mulher de alegrias transcendentes, que preferia estar noutro lado, que aceitou desempenhar tarefas simples e essencialmente ridículas, examinar tomates, sentar-se com a cabeça debaixo de um secador de cabelo, porque essa é a sua arte e o seu dever. Porque a guerra acabou, o mundo sobreviveu e nós estamos aqui, todas nós, constituindo famílias, tendo e educando filhos, criando não apenas livros ou quadros, mas todo um mundo - um mundo de ordem e harmonia onde as crianças estão em segurança (se não felizes), onde homens que viram horrores inimagináveis, que actuaram corajosamente e bem, regressam a casa ao encontro de janelas iluminadas, perfume, travessas e guardanapos.

As Horas, de Michael Cunningham