domingo, 2 de julho de 2017

Cansaço

Viviane está muito perto dos quarenta anos e, dependendo do momento, ora exibe a provecta idade como prova da sua presumida sensatez, ora finge que o passar do tempo lhe pesa como duas dezenas. Simula um revirar de olhos, impaciente e agoniado, põe a voz aguda e fala com trejeitos de repulsa:
- Com a idade, uma pessoa perde paciência para certas coisas. Não estou para aturar crianças. 
No entanto, quando a tomaram como mãe de uma jovem mulher, ofendeu-se com a burrice da senhora:
- Mas você acha que eu tenho idade para ser mãe de uma matulona destas? Por amor de deus, não deve estar a vê-la bem. - E virando-se para a amiga, que logo correu a desculpar-se pela machadada no ego: - Eu sinto-me bem na minha pele. Mas se tu pensas que pareces ter dezoito aninhos, tira daí a ideia.
Bem gostava de casar - às vezes lá desabafa que o namorado já garantiu que não casa e que ela, assim sendo, não está para se humilhar - mas não perde uma oportunidade para se queixar de boca cheia:
- O José lá anda às voltas na quinta, a arranjar tudo para eu ir morar lá com ele. Que chatice, não queria nada. Estou tão bem na minha vida. Ele zanga-se comigo quando diz a nossa quinta e eu o corrigo: a tua quinta. Mas eu já lhe disse que não quero nada daquilo. Por mim, ficava como estou que ficava muito bem.
- Então e filhos?
- Lá parece que vou ter que os ter. Mas também não queria muito. Pirralhos aos berros na minha casa, a sujarem-me as coisas? Não! Eu gosto de disciplina, comigo é assim. E ter filhos para quê? Só de pensar naquilo que se vê, andar uma mãe a sacrificar-se para depois ter desgostos.
Na verdade, em dias de mansidão lá confessa que adoraria ter uma carrada de filhos, talvez tenha sorte e ainda vá a tempo.
Sentindo-se inferior aos demais - e sente-o frequentemente - ora rebaixa quando poucos ouvem, ora lambe botas diante dos inimigos. Mas o que mais incomoda Viviane são as mulheres - essas pegas que andam a pedi-las:
- Uma mulher de bom gosto não se apresenta assim. Depois queixam-se. Depois aparecem violadas. Depois não há homem sério que lhes pegue. Uma mulher em condições não se comporta assim. Ela é caprichosa, é arrogante, é mimada, é burra, não sabe o que diz.
Na verdade, Viviane tenta matar o tempo com dietas, porradas de ginásio, químicos na pele e nos cabelos, e roupas de adolescente que põem à vista as rendas com que protege a intimidade. O homem que lhe pegou tem uma queda por estrangeiras exóticas - diz ela que prefere nem saber para não se estar a chatear - e, volta e meia, envolve-se em discussões para as quais não tem argumentos e que termina com:
- Esquece, se não consegues entender o que eu te estou a tentar dizer não vale a pena eu cansar-me.
Soubesse ela que não há coisa que canse mais do que o veneno correndo nas artérias.