quinta-feira, 27 de julho de 2017

Destrambelhar

Eu comento que a minha casa está um pandemónio e ela responde que é porque sou uma destrambelhada: como agora estou desempregada, todos os dias limpo a casa e vou às compras! Nossa senhora, penso eu, ponho uma cara de choque e compaixão e ela explica que não é sacrifício, que faz com gosto. Não tenho nada para fazer também, conclui. Invejo a sorte daqueles que, nada tendo para fazer, se põem com gosto nas lides domésticas e na bricolage. Tivesse eu um assomo desses por mês, durante uns minutos, e já ficava satisfeita. Aborrece-me tanto gastar tempo a esfregar panelas, a estender e dobrar roupas, a descascar batatas, a esfregar o chão. Por isso evito fazê-lo: estando o absolutamente básico assegurado, sigo para outros caminhos desenrascando no resto. Fui criada com raparigas cujos pais lutaram para que as filhas vingassem, isto é, se tornassem bons partidos. Aprenderam a fazer as cabidelas, a engomar camisas como deve ser, os truques e dicas para um forno imaculado, a escolher a indumentária certa para baptizar os filhos. Quando criança, ouvia dizer que os meus pais estavam a fazer fraco serviço, que graças ao descuido deles me tornaria numa mulher sem fé nem préstimo. Tinham razão, acabei na heresia e com talentos que não põem a casa a brilhar. Visto uma camisa mal engomada, guardo um almoço suficiente na mala, e vou à minha vida sem delegar para deus o que as minhas pernas são capazes de fazer, destrambelhada e destrambelhando alegremente pelo caminho.