segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Kitsch

A grande memória que guardo d'A Insustentável Leveza do Ser é a de Sabina, da sua forma de se fantasiar e de interpretar o seu entorno. Tenho uma vaga ideia de compreender a descrição que Kundera faz das paixões de Sabina como deturpações do objeto: Sabina não amava a coisa, amava a ideia efabulada da coisa. 
Penso nisto constantemente, sobretudo quando me vejo diante de algo ou alguém que parece ser apenas uma ansiedade, um sonho, uma busca - não de si, mas de uma amálgama de coisas misturadas sem grande critério. Quase como se a cultura e a arte se tivessem transformado em publicidade: a pessoa quer uma infância de luta como a de Edith Piaf, com o entorno memorável de Sophia, a vida louca e boémia de Stevie Wonder, a improbabilidade de ascensão de Saramago, as amizades de Chico Buarque, a raiva de Nina Simone, o amor insano de Frida, a morte épica de Jesus e o legado de todos eles somados. Com essa lente, contam de si como quem pensa um epitáfio: perdoando fraquezas, fechando os olhos à vulgaridade dos dias e esquecendo que a Terra gira sem nós.