sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A culpa é das mulheres

Um médico de meia-idade, além de machista, considera que o pequeno negócio da esposa é coisa sem valor. Chega a casa primeiro que ela, acomoda-se no sofá e espera pelo jantar. Num dia menos bom, a esposa perdeu a paciência e, sem passar pela cozinha, foi sentar-se à sua beira. Então e o jantar?, perguntou ele. A mulher vai contando o episódio e desabafa as dificuldades de educar os seus rapazes para não serem como o pai. As outras mulheres ouvem e vão metendo pelo meio as suas próprias histórias, o meu faz tudo!, deixa lá que lá em casa também tenho um desses, era o que me havia de faltar aturar isso. Tentam chegar a um consenso, perceber os porquês, arranjar soluções; finalmente desvendam o mistério: a culpa é das mulheres, que não sabem educar os homens. Nós é que lhes facilitamos a vida, diz uma, nós é que os habituamos mal, concorda outra. Como se não bastasse o resto, têm agora o rancor pelas sogras que não educaram os filhos como deve ser, e por si próprias por não terem quebrado o ciclo. Nisto tudo, saem os homens como eternos coitados: não conseguem cozinhar, não conseguem limpar, não conseguem cuidar dos filhos, não conseguem conter impulsos, não conseguem entender sentimentos e agora também não conseguem pensar. Para sempre filhos de todas as mulheres, vão subindo na vida, chegando onde querem e dispensando o que não lhes apetece. Atrás, as mulheres: dissertando sobre a culpa, limpando-lhes as migalhas, as botas e o cu.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Não tenho

Não tenho tempo. Está a dar o telejornal, não posso falar contigo. Tenho que responder aos comentários a esta foto que publiquei no facebook, espera. Vou jogar computador para descomprimir um bocado. Ver as séries do canal X é o meu momento de descanso, também tenho direito. Este vídeo com fotografias de cães e gatos é amoroso, estava mesmo a precisar. Agora não posso, estou a ler na revista sobre os carros dos famosos. A casa dos segredos sempre dá para a gente se rir. Gosto de dar uma voltinha no shopping, a ver as montras, sonhar nunca fez mal a ninguém. Tenho que ir ao ginásio e a seguir vou dar um salto ao barbeiro ou à manicure, mudar um bocadinho de ares. Nunca descanso nada nas folgas, tanto pó para limpar, tanto que passar a ferro, a louça que deixaram na banca para eu lavar, as compras para a semana e o lanche na praça da alimentação. Como é que hei de ter tempo para o que interessa? Só se não dormir.

Não tenho dinheiro. Tenho que comprar cereais de açúcar para os miúdos, se lhes der papas de aveia mandam-me comer a mim. Se não tivermos bifes havemos de comer o quê?, que desconsolo. Se não fumar ainda perco o juízo, é bom para aliviar o stress. Bebo cerveja, claro, não ter um mimo de vez em quando é ter uma vida estúpida. Comprei estas roupas todas em saldos, tem que ser, não há dinheiro. Inscrevi-me num ginásio, uma pessoa tem que olhar pela saúde. Este telemóvel é caro mas é bom e tira fotografias bonitas, compensa. Fazer bolachas nem compensa o trabalho, mais vale comprar. Remendar as calças?, deus me livre, já não estamos no tempo disso, vamos ao supermercado que compramos um par jeitoso por tuta e meia. Ao domingo gostamos sempre de ir lanchar à confeitaria, a gente também merece. Vou, mas vou de autocarro, ainda são uns 20 minutos a pé, eu já me canso que chegue no trabalho. Valha-me a subscrição de 400 canais, sempre dá para distrair da vidinha.

Hás de me  dizer como é que numa manhã limpas a casa toda e ainda passas a ferro. Pois, não tens nada, que vida de desgraça. Tens pouca roupa, vai comprar mais, não há necessidade disso. Podias pôr a casa mais bonita, decorar, comprar uns bibelots no espaço casa, há coisas bem giras a um euro. Muda as jantes do carro, sempre dá outro ar, conheço um gajo que faz isso barato. Liga a televisão, deus me livre, que silêncio! Porque é que não tens? Sabes a Chica da novela? Sabes o Tiago da casa dos segredos? Viste o que pôs a Maria Manuela no facebook sobre o ex-namorado? Não sabes nada, que vida estúpida, o que é que fazes nos tempos livres? Tenho lá tempo para ler! Tens que caminhar 1 hora todos os dias para o trabalho?, que tragédia! Podias pôr um verniz nas unhas. Podias ir fazer um penteado diferente, a minha cabeleireira só leva 5 euros. Limpas a casa com água e vinagre?, que nojeira, assim a casa não cheira a nada. Parece que só te vejo a comer couves, que desconsolo, há uns aperitivos no supermercado que são uma maravilha. Água da torneira?, também não há necessidade de ir tão longe, não é um garrafão de água que te vai pôr pobre. Muito me rio contigo, sempre com a marmita para trás e para a frente. Ai foste passear?, vida de rico é outra coisa. Onde?, deus me livre, há sítios melhores, que vida estúpida. Que vida estúpida, que vida estúpida, que vida estúpida. Que vida estúpida. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Tristeza

Carlota era daquelas que não necessitava de afinidade ou contexto para contar das suas dores. Uma dúzia de desconhecidas ficou a saber, sem que tenham perguntado sequer em pensamentos, que Carlota sofria de uma terrível depressão, que tomava vinte calmantes por dia, que os seus amores haviam falhado e que estava de coração partido. Todos os dias aprofundava alguma intimidade sua, já que tinha gente à volta. Usava vestidos até aos pés, muito largos, de cores berrantes, com cheiro a mofo e cheios de manchas. Finalizava os visuais com chapéus escuros, de enormes abas. Um dia, pintou muito a cara e perguntou a todas mal chegou: estou linda, não estou? Todas disseram que sim, enchiam-se de pena dela, e continuaram o trabalho. Carlota ficou contente. 
Certa tarde, vendo no comboio uma colega sua, a uns metros de distância, torceu-se na cadeira e virou-se para trás, para a poder olhar de frente. Puxou conversa, bem alto e para que todos ouvissem: 
- Então, está a gostar do trabalho que temos feito? - Os restantes passageiros, curiosos, torceram-se também para poderem ver quem recebia a mensagem. 
- Sim. - E um sorriso amarelo de desconforto por tanta atenção.
- De que é que está a gostar mais? Não acha a directora espectacular? E aquela pintura que fizemos? - Rejubilava de vaidade, todos seguiam a conversa, ávidos de mais pormenores.
- Sim, sim. Estou a gostar muito. - A colega não estava tão empolgada pelo púlpito que lhe inventaram. 
- Qual é a sua técnica preferida? - Carlota ia forçando, não queria perder aquela oportunidade.
- Hum, gosto do giz... 
- Eu adoro pintura desbotada! Estou a adorar tudo. Faz-me bem, sabe? Faz-me bem à cabeça, ao coração... Não estou a passar por um momento fácil, como sabe, e quando venho para aqui fico logo com outra disposição. É muito bom. Sabe, por causa da depressão, dos calmantes... - Numa guinada imprevisível, e tudo enquanto sorria, agarrou de vez os passageiros. Carlota, chegada à estação, saiu triunfante, com muitos votos de boa tarde e boa noite e até ao dia tal. A colega, que já mal falava - também já não era necessária -, passou a ir a pé para casa.

sábado, 10 de setembro de 2016

Intrusos

Os que se batem pela justiça, os que professam a compaixão, os que respeitam a sua humanidade, os que aparecem e resolvem, os que escolhem acordar antes do nascer do sol, os que só tomam o que cultivam, os que se buscam, os que buscam o outro, os que condenam a condenação, os que deitam as mãos à terra e daí tiram todo o seu sustento, os que erguem as paredes dos seus abrigos, os que agradecem, os que amam.
- Sonhas demasiado, não és deste mundo. - A pequenez.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Incêndio

Falava pomposamente da fazenda que deixou no país natal, e todos os seus detalhes lhe pareciam obra de arte. Ao aperceber-se de que entre os sentados à mesa estava uma vegetariana, resolveu espicaçar:
- Então não comes animais porquê? - A rapariga hesitou antes de responder, já antecipando que a causa da pergunta não era ingénua curiosidade:
- A verdade é que vi um documentário sobre o que passam os animais e fiquei a sentir-me mal com isso... E também por uma questão de saúde...
- Mas os animais também se alimentam de outros animais, é a lei da vida. 
- Eu compreendo, não condeno quem come animais, eu é que prefiro... - Vendo que não haveria grande debate, principiou a descrever, por puro lazer, os momentos em que matou animais na adorada fazenda. Explicou como degolava os cordeiros, a posição em que tinha que os segurar para eles não escaparem, a reacção do pai, que se atrapalhava e só estorvava. Contava tudo com muito gosto, a olhar a vegetariana que se esforçava por passar despercebida. A esposa ia fazendo sorrisos amarelos, também ela não lhe achava piada, mas já devia ter passado o tempo em que ainda se importava. Quando se cansou de falar da fazenda, começou a descrever os seus planos de riqueza: estava no estrangeiro porque tinha ambições. Quando a mulher, talentosa cozinheira, lhe confessou que gostaria de abrir o seu próprio restaurante, ele deu-lhe uma descompostura: que falta de objectivos, que falta de ambição! Já ele, ia dominar a língua estrangeira para poder ingressar numa boa universidade, juntar umas boas dezenas de milhares de euros e regressar à terra para construir moradia a pronto pagamento. Pouco interessava que, tanto tempo depois da chegada, ainda não soubesse o rosa rosae lá do sítio e que, para acalmar a solidão e a saudade, estourasse quanto recebia em recheios para a casa que depois exibia às visitas. Claro que as visitas não podiam tocar - ver é com os olhos! - tal como não podiam sentar-se à vontade no caríssimo sofá, ou pegar no comando da televisão sem um planeamento prévio. Se é para comprar, é para comprar bom e para inglês ver. Do alto do seu conforto, dava com uma mão para tirar com a outra, e palestrava quer os ouvintes fossem voluntários ou não. A mulher sabe disto tudo, mas ai de quem lho diga: falar mal, falo eu, não os outros. Pois se fossem os outros, o despeito tomava-lhe o coração e logo corria em salvação do seu desleal amado: ele dá tudo, ele paga jantares aos amigos, ele deixou cá ficar não sei quem e até lhe deu uma chave, ele trabalha, ela é boa pessoa. Ouvindo-a dá ideia de que o principal esforço é convencer-se a si própria. Quando, muito antes de este casamento se assemelhar a um beco sem saída, lhe perguntaram: ama-lo? é Ele?, ela não respondeu, antes começou a descrever como se entendiam bem nas lides domésticas da casa. Parece que ninguém viu nisto mau presságio. Mas talvez não faça mal. Onde nunca houve faísca, não haverá incêndio.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Revelação

Diz a viúva que o falecido só se fez homem depois de ter voltado do país que o acolheu como imigrante. Antes disso, estalos, socos, insultos, ciúmes, raiva, desespero de se impor e mostrar. Quando regressou de vez, de horizontes mais amplos e de ânimos sossegados, passou a reunir a família à mesa com rara solenidade e exigia o respeito com que passou a tratar toda a gente. Conversava pausadamente, reflectia antes de falar, lia e perguntava. E quando a mulher, que até ao fim há de remoer mágoas passadas, lhe lembrava as dores infligidas, ele compreendia e desculpava-se: eu sei, mas as coisas agora estão diferentes, eu estou diferente. E é facto que desse primeiro homem nunca cheguei a ter vislumbre. Quando, anos antes de morrer, deixou de ser dono do seu corpo e passou a depender de engenhocas para respirar, contou o que fez: adaptei-me, é assim a vida. Não podendo viajar pelo seu próprio pé, comprou um computador, pediu que lhe ensinassem o que fazer, ligou-se à internet e passeava com a ajuda dos mapas virtuais e dos vídeos. Nunca lhe ouvi lamúrias, queixas de má sorte, pedido de esmolas. Morreu velho, cheio de memórias que o envergonhavam, fracturado porque reconstruído e em paz. Não sei se mudou ou se se revelou, como diz o senso comum. Mas pelo caminho, ainda que eu o ignore, achou a dignidade, a única companhia no leito de morte. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Encargos

Os pais de Joel eram gente séria, sem dívidas e sem tento na língua. Cozinhavam ambos maravilhosamente e disso fizeram negócio ambulante, dando de graça a quem entendiam. À custa de tanto e tão árduo trabalho, foram amealhando mais do que os comuns mortais. Berravam muito, sem que o berro significasse raiva. Criaram dois filhos como puderam, sem estudos e muita labuta. Maria e Manuel, seus vizinhos e adolescentes apaixonados, entretinham-se nos intervalos do namoro a dar colo aos pequenos. Quando Joel cresceu, encontrou amor numa rapariga e com ela casou e teve filhos. Sentindo que era hora de pôr o seu nome numa casa, correu à procura de fiadores: Maria e Manuel, já de romance maduro, com filhos e responsabilidades. Disseram que não. Sabiam que Joel se tinha tornado em homem de fraco carácter, de feitio atravessado. Face à recusa, o pai de Joel fez o que fazem os pais pelos filhos: sem olhar às fraquezas do primogénito, por ele lutou; assumiu responsabilidade que não era sua e foi ele próprio pedir ao casal, que conhecia e respeitava há tantos anos, que reconsiderassem. O pai de Joel, como dito, era gente séria - Maria e Manuel assentiram finalmente. 
Muitos anos se passaram. Os pais, à custa de assumirem responsabilidades que não eram suas, perderam tudo e tiveram que recomeçar. Joel e o irmão não se importavam, acreditavam em direitos sem encargos. Um dia, Manuel e Maria receberam uma carta dando conta de falhas impróprias para gente séria: dívidas sem razão de ser, atrasos nos pagamentos, penhoras. Joel e a esposa bateram-lhes à porta, depois de tantos anos de silêncio, e com estranha familiaridade se sentaram no sofá e discorreram as suas mágoas. Choraram dificuldades, como vítimas de inevitabilidades, e anunciaram falência. Feito o discurso, despediram-se com atenciosos cumprimentos e foram fazer vidas desafogadas para longe. Maria e Manuel, que nunca tinham ficado a dever a ninguém, que tinham criado dois filhos com modéstia não por penúria mas por princípio, que nunca tinham tido razões para deixar que a vergonha os dobrasse, ficaram com as incumbências. O pai de Joel há de se chegar à frente, há de matar a vergonha com trabalho. Maria e Manuel, sem culpas mas sem saídas, não tiveram outro remédio senão hipotecar a casa onde criaram os filhos. Joel e a esposa passeiam de queixo erguido. Conta a mãe que a vida lhes corre bem. Talvez por isso não tenham tempo, quando a ocasião surpreende, para olhar nos olhos as pessoas que desgraçaram.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A causa e a coisa

Disse há tempos Bárbara Bulhosa que esta geração de escritores não é assim tão extraordinária: não há um conjunto de génios a produzir - seja na literatura, na música, ou nas belas-artes. Lembrei-me disto a propósito de um estudo que se fez para apurar os efeitos da retirada dos calmantes tecnológicos aos jovens. Comecei a ler o artigo cheia de esperança, julgando que o efeito imediato seria o advento de uma tremenda e adormecida criatividade, o repentino pulsar de uma paixão desconhecida, fome de aventura, auto-análise profunda. Enganei-me: ansiedade descontrolada, inquietação, pensamentos suicidas. Só três dos sessenta e tal jovens é que aguentaram a experiência até ao fim. Abortado o experimento, voltaram a conectaram-se virtualmente com o mundo. Tudo acalmou. Recordo-me de uma rapariga que, durante anos, aproveitou a mágoa e a solidão para escrever abundantemente, que se desligou de si por força das circunstâncias e que, após um só dia inteiro sozinha, numa cidade onde não conhecia ninguém e sem acesso a nada a não ser as ruas e os livros, chegou a casa sem fôlego e com ideias para um romance.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pregar

Simone era estudiosa, perspicaz, de humor acutilante. Convicta de tudo, até daquilo de que duvidava, envolvia-se em acesos debates - sobre tudo e sobre nada. Escolheu uma causa e por ela se bateu e continuará a bater, e foi esse o alimento que lhe deu força para percorrer cada um dos caminhos eleitos. Fixando as armas na moldura política do que pretendia vencer, nada mais fez: porque não importa, não resolve nada, isto é um problema político. Quando chegava a altura de ir às urnas, no entanto, clamava que tudo é político, que é urgente votar e perceber o porquê do voto, que até o preço do pão é político. Simone era leal, há de morrer leal, há de erguer a bandeira que adoptou até ao seu último suspiro. Mas se, nesses últimos instantes, lhe perguntarem o que fez ela pelo seu ideal, ver-se-á forçada a responder que dedicou toda a sua vida a convencer os demais de que o problema é político. Justificará: enquanto não houver um entendimento massivo de que o problema é político, não adianta fazer nada. Ninguém lhe fará mais perguntas, porque debater sobre tudo nem sempre apetece e debater sobre nada rouba tempo que foge. Mas se ousassem perguntar-lhe mais do que isto, seria era esta a minha aposta: quem é que ficará convencido por vós, se vos veem fazer igual? quem é que se juntará ao combate se, em vez de mostrarem, contaram como devia ser? 
A minha causa é a da palavra. Mas por mais fé que lhe deva e guarde, não esqueço o gesto. Só a dança fará diferença. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A festa, o amor e a coragem

Numa dessas vilas portuguesas que ninguém lembra, um jovem casal encontrou a festa mais triste de que havia memória – gente em peso na rua sem que motivo se encontrasse: a lagoa passava despercebida a quem passava e nem o carnaval de atrações do costume marcava presença. Funeral sem sacrificado? Motim sem raiva? Que seria? Deram meia volta para encontrar destino que prestasse e estacionaram o carro no meio das dezenas já aparcadas enquanto procuravam a resposta.
Aproximou-se um outro casal, em passo largo para a velhice. O homem, gordo e grisalho, antecipando exaltações apenas inventadas por si, apressou-se em direção ao seu carro topo de gama e pô-lo a trabalhar ainda antes que a esposa tivesse tido tempo de abrir a porta e ocupar o lugar que lhe cabia. O primeiro casal recolocou os cintos e aguardava que a procissão de carros na estrada permitisse a manobra; pois o senhor, ávido de qualquer emoção em falta no seu quotidiano, iniciou a marcha-atrás furiosamente, esgueirou-se pelos carros sem vagar ou prudência e, antes de ir à sua vida com a rapidez dos fugitivos, gritou ao jovem condutor:
- És mesmo filho da puta! – A esposa discutiu, de nervos esfrangalhados. É coisa que se diga? O jovem, querendo testar a coragem dos que atiçam e abalam, pôs a viatura em marcha, encostou-lhe a frente e gritou:
- Encosta o carro, vamos conversar. – O homem, com idade para ser pai daquele que pretendia ofender, pôs a mão de fora, mostrou o dedo do meio e assim ficou, provocando mas sem vontade de frentes-a-frentes. A perseguição continuou por uns minutos, o homem de peito cheio e mão de fora, a mulher num frenesim pedindo ao esposo que parasse com o disparate, o jovem esticando a cobardia do agressor, a jovem em silêncio à espera do desenlace.

Aconteceu o óbvio: tirada a evidente conclusão de que quem insulta e foge não há de parar, os mais novos foram desfrutar da sua juventude para longe; os mais velhos seguiram na mesma estrada, por onde e como o homem entendeu, sem que a outra metade da resignação tivesse voto na matéria.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

E se...?

Como seria se tivéssemos individualmente que produzir (ou matar) e conservar os nossos próprios alimentos, sem recurso a grandezas e medidas extraordinárias? Se tivéssemos que produzir os nossos fios e os nossos tecidos, se tivéssemos que coser as nossas roupas, fazer os nossos sapatos, e sobretudo, se tivéssemos que ser verdadeiramente responsáveis pelo nosso lixo - por reciclá-lo e decompô-lo? Como seria cada um de nós? Não coloco aqui um cenário de penúria, longe disso; o cenário seria de abundância, mas de responsabilidade e independência. Cada um por si, sem delegar e sem fazer trocas com o vizinho. Pergunto-me quantos de nós comeriam porcos, deitariam roupa e calçado fora porque ao centro comercial chegaram as novas tendências da estação, pergunto-me quem continuaria a achar as embalagens de plástico cómodas e benéficas. E se tentássemos? E se a simplicidade da vida e a pequenez das verdadeiras necessidades voltassem a despontar? 

Entretenimento

Embora não tenha sido por opção, em casa já não tenho televisão nem computador. Apenas um rádio, meia dúzia de discos que não interessam a ninguém, livros, papel, um lápis de carvão e canetas. Quando o miúdo chegou, deitei as mãos à cabeça. Nem os guaches e os lápis de cor tinha, sequer a bola de futebol e os livros cheios de desenhos e fotografias. Como é que o haveria de entreter? Foi simples: deixei-o estar. Em pouco tempo, a máquina de costura era um monstro, a fita métrica um caracol cheio de números, o guarda-roupa um berço para meninos grandes, os meus discos a banda sonora de histórias improvisadas mediante a melodia. Sem distracções, a este miúdo, que se alimenta como se comer fosse castigo, até a melancia pareceu  interessante e apetecível. Pouco fiz. Cada vez mais me convenço de que não forçar a infância é a única forma de a respeitar. 

Esquisitices

Há de ser universal: quando eu tinha uns doze ou treze anos, uma senhora viu beleza nas minhas mãos; a outra que lá estava não achou justo: tem as mãos bonitas porque não faz nada em casa! Daqui a uns anos é que se vai ver. Foi a mesma mulher que. aquando do meu décimo oitavo aniversário, me chamou para me dizer - como quem quer estragar alegria - quando deres por ti, estás nos trinta. Continuou: eu com a tua idade também era muito jeitosa, mas o tempo passa e tu vais ver como vais ficar. Exemplificou arregaçando a saia e exibindo as coxas colossais esburacadas de celulite. Achei sempre divertido. Quando a minha anca começou a alargar, uma menina da minha idade que nunca chegou a fazer-se mulher veio chamar-me defeituosa. Hoje as minhas mãos não sofrem com as lides domésticas e o meu corpo, que muda - e bem - com a idade, continua a servir o seu propósito: abrigar-me e levar-me onde é preciso. 
Quando havia festas, iam às seis da manhã para a cabeleireira, pôr pinturas e penteados carnavalescos. Já eu apenas demonstrava falta de gosto por aparecer nos restaurantes, independentemente da ocasião, de cara limpa e cabelo ainda molhado. Neste problema muitas outras mulheres repararam. Numa determinada empresa por onde passei, as minhas colegas achavam-me pálida e moribunda, e perguntavam-me frequentemente se estava doente ou se tinha dormido mal. Entendia-as: se passasse muito tempo a olhá-las e a seguir me visse ao espelho, também aos meus olhos parecia translúcida. Um dia, uma disse-me:
- Só me maquilho porque preciso. Se não me maquilhar, fico como tu: com esse ar de doente, de defunta. - Olhei-a, vi que naquela frase não havia maldade, apenas franqueza. Soltei uma gargalhada - ainda hoje gosto de contar essa história, faço sempre o interlocutor rir - e agradeci ironicamente. - Não me leves a mal, eu sou mesmo como tu. Tenho a pele pálida e sem cor. 
Sem cor significava apenas cor de pele. Lábios vermelhos como pimentos, só se sangrar; roxos, só se apanhar muito frio. Se algum dia me achasse de pálpebras verdes ou azuis, ficaria alarmada. E bochechas rosadas, só depois de um bom copo de tinto. Parece-me justo. 
Certo dia, uma colega que tinha estado de baixa devido a uma gripe, veio ter às casas-de-banho para se lamentar do fraco aspecto. A cara estava inchada como quem acabara de acordar e o cabelo era surpreendentemente ondulado se ela não o domesticasse. Depois lá esclareceu: é que não tomei banho antes de vir para aqui. Preciso de me maquilhar. Rica solução. Logo se apressaram a polvilhá-la com - jamais esquecerei - uns pós a que chamaram tons terra. No fim, perguntou-me se estava bem. Não sabia o que dizer, não queria ofender nem mentir; respondi-lhe então estás com mais cor. Serviu. Então ela olhou-me de perto e disse:
- Tu é que tens sorte, não precisas de te maquilhar.
- Tu também não, nem de te maquilhares nem de esticares o cabelo. 
Achou graça e concluiu a conversa: foste sempre muito esquisita. Eu?

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ingenuidade e desinteresse

Um homem de meia-idade recorda a sua juventude: o ultramar, a ditadura, a guerra, o 25 de abril, a descolonização. Apercebeu-se cedo da injustiça, do ódio, das falhas da humanidade. Conta o que via, ouvia e pensava nesse tempo. Depois busca o exemplo do filho, um adolescente, e revela o choque que é ver a sua ingenuidade política; mais: deteta-lhe um perigoso desinteresse. Pegando no caso do filho e no seu, alarga e generaliza: não é só ele, é toda a geração dele que, ao contrário da minha... Espanta-me. O adolescente foi enviado para a escola aos três ou quatro anos, com horas monitorizadas para rir e brincar e com as tarefas de manutenção de diversão e criatividade já pré-definidas por outros. Durante os dez anos seguintes, fecharam-no em salas cheias de gente da sua idade e proibiram-nos de falar, de estar em pé, de fazer muitas perguntas e de contestar o que lhes transmitiam. Sem olharem a circunstâncias, a todos avaliaram do mesmo modo oco e mecânico, avaliando capacidade de memorização quando julgavam avaliar inteligência e sabedoria. No fim de cada dia, colocaram-no diante de um ecrã que centenas de pessoas transformam num púlpito que lhes permite determinar sentenças favoráveis a quem tem pouco interesse que isto mude. E o pai - o que poderia ele fazer? - senta-se, recosta-se e fala - do seu filho, que ainda está longe de ser homem - como se fosse um ser passivo, distante, que nada pode senão assistir. Digo que sim a tudo. Sim: ingenuidade política. Sim: perigoso desinteresse.   

terça-feira, 26 de abril de 2016

Castigo

Entraram com a criança e, num tom determinado e ríspido, anunciaram:
- Hoje não há tablet, nem telemóvel, televisão... nada! Está de castigo, que é para ele aprender a não se portar mal. - Beijaram, zangados, a face do miúdo, entregaram-no à avó e foram trabalhar. A avó, encaminhando o pequeno Pedro para o interior da casa, ia perguntando com ternura: que fizeste para a mãe e o pai estarem zangados? A resposta já não ouvi. 
Pedro nasceu sereno e amoroso. Dormia bem, acordava a sorrir e a pedir mimo. Sossego e carinho era quanto bastava para o acalmar em momentos mais difíceis. Como tantos outros pais, os seus também achavam graça à sua capacidade de imitar o que via. Quando o pai irritava a mãe, a mãe, com o menino no colo, dizia dá um soco ao pai, cerrava-lhe o punho e ela própria levava a pequena mão à cara do inimigo: pumba, que é para o pai se portar bem. O pai ria, a mãe ria, o bebé primeiro olhava confuso e depois juntava-se ao riso. O pai fazia brincadeiras semelhantes quando era a sua vez de segurar o filho. Dá tau-tau na mãe, para ela aprender. De tão inofensivo, os três riam e repetiam o momento. Quando o pequeno começou a dar mais quedas do que passos, os pais ensinaram-no a defender-se do que o magoava: caíste ao chão? Bate no chão, que foi mau para ti. Trilhaste a mão na gaveta? Dá um murro na gaveta. É certo que alivia. Quando via um insecto, os pais gritavam mata o bicho, para não te fazer mal. Quando começou a querer ver bonecos em vez das séries da televisão por cabo, os pais puseram-lhe uma televisão no quarto para todos poderem desfrutar sossegados das maravilhas que os santos ecrãs transmitem. Não gostavam que o filho se sujasse ou andasse descalço, ou que passasse muito tempo ao ar livre porque o sol está muito perigoso. Quando Pedro fez quatro anos, já tinha um tablet, uma playstation e uma PSP, um telemóvel e uma televisão. Um luxo. Também já tinha mau feitio. Quando o contrariavam, levantava a mão e punha uma expressão ameaçadora, hábito que demorou muito tempo a reverter mas que não anulou o instinto. Depois passou a atirar-se para o chão, gritando desesperadamente, incapaz de conter a frustração de não se poder defender e de não poder levar a sua avante. Às vezes, quem cuidava dele limitava-se a esperar que passasse. Outras vezes, segurava-o nos braços procurando consolar as suas desilusões. Nas vezes restantes, faltando paciência e compaixão, usava a chamada palmadinha pedagógica. Ou os castigos que, naquele dia, os pais lhe impuseram. Achava eu que removerem os calmantes tecnológicos era um presente e era afinal um castigo. Dizem-me que não sei o que digo ou o que penso porque não sou mãe. Parece que não tenho autoridade. Respondo que de facto pouco ou nada sei. E também é verdade que são sempre mais as perguntas do que as respostas que tenho. Então, oxalá alguém me respondesse, com a misericórdia que me devem pela minha ignorância, pelo menos a esta: quando é que devolver uma criança à infância se terá tornado na maior das punições? Silêncio.