sábado, 19 de novembro de 2016

Liberdade

Arriscaria dizer que somos nós os nossos próprios carrascos. Todos os grilhões que arrastamos todos os dias são nossos, apesar de a todos baptizarmos com outros nomes. Talvez a liberdade seja compreender que ser inconsequente é, na maior parte das vezes, afinal a maior das prudências.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Os alarmistas

A desvantagem do conhecimento acabado de arrumar é que goza do cepticismo de todos os que ainda não souberam da novidade. O que deveria ser humildade, curiosidade, um certo pudor até da própria ignorância, dá lugar à arrogância esparramada, ao conselho que jamais foi requisitado, à ilusão de sabedoria que urge demonstrar. O açúcar refinado faz mal? Paranóia. Meditar tem efeitos positivos sobre a saúde? Feitiçaria. O nível das águas do  mar vai subir? Discurso apocalíptico. Acaba-se a conversa e seguem caminho os sábios, tão seguros de si mas tão confusos com os cataclismos que tomam lugar - dentro e fora do corpo. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Hoje

É o dia em que se regressa ao sótão onde ficaram esquecidas as misérias, escondidas debaixo do mais belo manto, destinadas à putrefacção. Afinal precisamos ainda de rebuscar alegria, calma, sobrevivência, tal como afinal não levamos no bolso assim tanta sabedoria. Há que sacudir do corpo todos os demónios que nos deram a engolir, que respirámos, que ouvimos, que vimos, que entraram pela nossa pele. Expurgar o medo e a ignorância e arregaçar as mangas, mergulhar as mãos na terra, chorá-la, para enterrar e para fazer brotar. 
Esperemos que a pele caia morta. Esperemos que renasça.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Moderadores

Eu, que nunca achei graça a felinos, vejo-me agora de coração aberto e colo disponível. A falta de familiaridade atrapalha-me, em brincadeiras inocentes leio raiva e logo me apetece, como mãe de traquinas, separar as feras. Juram-me que é pura brincadeira, que as deixe estar, que entre bichos não se mete a colher, e eu acredito por não saber mais, apesar de se me escangalharem os nervos de qualquer maneira. Se me deixassem, seria moderadora: quero arrefecer o que escalda, levantar fervura no que não sai da mornidão, aquietar o que mexe muito, agitar a mansidão. Ainda bem que me deram gatos. 

domingo, 30 de outubro de 2016

Diferenças

Um casal de idosos caminha de braços dados. Enquanto dá passadas, o homem vai apreciando a paisagem, olhando em redor, e acaba tropeçando desastradamente em si próprio. O braço da esposa vale-lhe a salvação e não chega a tombar. Depois de o segurar e de garantir que o marido se mantinha em pé, logo puxou reprimendas como fazem as mães aos filhos crianças:
- Ó homem, tu não sabes ver onde pões pés? Não caminhas como deve ser? Não sabes olhar para o chão? - O homem, espantado, responde-lhe:
- Então hei de caminhar a olhar para o chão?! Eu tenho é que olhar para cima, para apreciar as coisas.
Seguiram caminho - eles juntos mais as diferenças irreconciliáveis. 

sábado, 15 de outubro de 2016

Santas e pecadoras

Os olhos de ambas brilham, húmidos de água benta, de tão santas e comovidas. Ai, as pessoas com necessidades especiais, os cancerosos, os pobres, os moribundos... tão maravilhoso é ajudá-los! Garantem que não há sentimento igual, derretem-se com o choro de gratidão, com a voz pedinte e com a fraqueza e o desamparo. É uma forma belíssima de ocupar o tempo livre, e no fim regressam a casa tão felizes! Contam que não há nada que as realize desta forma, nada se compara à grandeza de dar esmola. Por isso, quando alguém diz os deficientes, doem-se muito, porque todas as histórias lhes pertencem agora, fazem parte do clube, com a vantagem de poderem virar costas quando querem e seguir para outros caminhos - como, aliás, seguiram. Mas isso não importa. Já ganharam o seu lugar no paraíso, já têm histórias - que não lhes pertenceram jamais - para contar, e terão sempre esse trunfo na manga para atirar sobre a mesa quando alguém lhes disser que não são assim tão boas. E, mais importante, têm marcado no coração o sabor da fortuna, do privilégio e da boa sorte. Ainda bem que há miséria, é tão maravilhoso!

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Polivalência

Diz-lhes que terão que ser polivalentes se quiserem sobreviver no mercado: não se convençam de que só porque são contratadas para desempenhar a sua profissão, poderão cruzar os braços quando lhes pedirem mais. Não senhor: és padeira, mas vais ter que deixar o teu serviço para servir às mesas; és operadora de caixa, mas se for preciso arrumar o armazém é fechar o bico e obedecer; és vendedora de casas, mas se tiveres que lhes pintar as paredes há que arregaçar as mangas. Argumenta com todos os casos que conhece de gente que foi "testada", "posta à prova" e que conseguiu vencer e ser agraciada com um contrato e um ordenado. Elas ouvem e dizem que sim, claro que sim, quem não sabe?, temos que ser despachadas, desenrascadas, fazer de tudo um pouco, dar cartas, mostrar serviço. Pergunto-me se diriam o mesmo se, em vez da cardiologista, chamassem uma psiquiatra para lhes operar o coração; se fosse a secretária e não a engenheira a projectar a ponte por onde passam todos os dias; se a professora dos filhos deixasse de lhes dar aulas para ir limpar as casas-de-banho; se, enfim, em vez de deus viesse o diabo. Depois de exercitarem a polivalência com uma perna atrás das costas, hão-de se refastelar nos sofás e lamentar, enquanto jantam a ouvir os pivots de telejornal, que realmente neste país é só incompetentes. Nada: versáteis, não é?

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Os imprestáveis

Um conjunto de pessoas que se consideram solidárias, compassivas e generosas, na hora de escolher quem vive e quem morre, puseram de lado as emoções e elegeram os espécimes mais fortes. Justificam: precisamos de gente útil, forte, saudável, inteligente, que dê jeito, que preste serviço. Por que raio haveríamos nós de salvar os tolos, os miseráveis, os fracos, os que se prostituem, ou simplesmente os vulgares, que não têm talentos nem ambições? Com precisão e frieza cirúrgica, escolhem a dedo quem não merece o trabalho de ser salvo, e continuam as tarefas corriqueiras que as esperam sem mais pensar no assunto. Fiquei em silêncio. Finalmente percebi como é que se chegou ao ponto de construir um memorial em Berlim que nos lembrasse de como somos atrozes.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A culpa é das mulheres

Um médico de meia-idade, além de machista, considera que o pequeno negócio da esposa é coisa sem valor. Chega a casa primeiro que ela, acomoda-se no sofá e espera pelo jantar. Num dia menos bom, a esposa perdeu a paciência e, sem passar pela cozinha, foi sentar-se à sua beira. Então e o jantar?, perguntou ele. A mulher vai contando o episódio e desabafa as dificuldades de educar os seus rapazes para não serem como o pai. As outras mulheres ouvem e vão metendo pelo meio as suas próprias histórias, o meu faz tudo!, deixa lá que lá em casa também tenho um desses, era o que me havia de faltar aturar isso. Tentam chegar a um consenso, perceber os porquês, arranjar soluções; finalmente desvendam o mistério: a culpa é das mulheres, que não sabem educar os homens. Nós é que lhes facilitamos a vida, diz uma, nós é que os habituamos mal, concorda outra. Como se não bastasse o resto, têm agora o rancor pelas sogras que não educaram os filhos como deve ser, e por si próprias por não terem quebrado o ciclo. Nisto tudo, saem os homens como eternos coitados: não conseguem cozinhar, não conseguem limpar, não conseguem cuidar dos filhos, não conseguem conter impulsos, não conseguem entender sentimentos e agora também não conseguem pensar. Para sempre filhos de todas as mulheres, vão subindo na vida, chegando onde querem e dispensando o que não lhes apetece. Atrás, as mulheres: dissertando sobre a culpa, limpando-lhes as migalhas, as botas e o cu.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Não tenho

Não tenho tempo. Está a dar o telejornal, não posso falar contigo. Tenho que responder aos comentários a esta foto que publiquei no facebook, espera. Vou jogar computador para descomprimir um bocado. Ver as séries do canal X é o meu momento de descanso, também tenho direito. Este vídeo com fotografias de cães e gatos é amoroso, estava mesmo a precisar. Agora não posso, estou a ler na revista sobre os carros dos famosos. A casa dos segredos sempre dá para a gente se rir. Gosto de dar uma voltinha no shopping, a ver as montras, sonhar nunca fez mal a ninguém. Tenho que ir ao ginásio e a seguir vou dar um salto ao barbeiro ou à manicure, mudar um bocadinho de ares. Nunca descanso nada nas folgas, tanto pó para limpar, tanto que passar a ferro, a louça que deixaram na banca para eu lavar, as compras para a semana e o lanche na praça da alimentação. Como é que hei de ter tempo para o que interessa? Só se não dormir.

Não tenho dinheiro. Tenho que comprar cereais de açúcar para os miúdos, se lhes der papas de aveia mandam-me comer a mim. Se não tivermos bifes havemos de comer o quê?, que desconsolo. Se não fumar ainda perco o juízo, é bom para aliviar o stress. Bebo cerveja, claro, não ter um mimo de vez em quando é ter uma vida estúpida. Comprei estas roupas todas em saldos, tem que ser, não há dinheiro. Inscrevi-me num ginásio, uma pessoa tem que olhar pela saúde. Este telemóvel é caro mas é bom e tira fotografias bonitas, compensa. Fazer bolachas nem compensa o trabalho, mais vale comprar. Remendar as calças?, deus me livre, já não estamos no tempo disso, vamos ao supermercado que compramos um par jeitoso por tuta e meia. Ao domingo gostamos sempre de ir lanchar à confeitaria, a gente também merece. Vou, mas vou de autocarro, ainda são uns 20 minutos a pé, eu já me canso que chegue no trabalho. Valha-me a subscrição de 400 canais, sempre dá para distrair da vidinha.

Hás de me  dizer como é que numa manhã limpas a casa toda e ainda passas a ferro. Pois, não tens nada, que vida de desgraça. Tens pouca roupa, vai comprar mais, não há necessidade disso. Podias pôr a casa mais bonita, decorar, comprar uns bibelots no espaço casa, há coisas bem giras a um euro. Muda as jantes do carro, sempre dá outro ar, conheço um gajo que faz isso barato. Liga a televisão, deus me livre, que silêncio! Porque é que não tens? Sabes a Chica da novela? Sabes o Tiago da casa dos segredos? Viste o que pôs a Maria Manuela no facebook sobre o ex-namorado? Não sabes nada, que vida estúpida, o que é que fazes nos tempos livres? Tenho lá tempo para ler! Tens que caminhar 1 hora todos os dias para o trabalho?, que tragédia! Podias pôr um verniz nas unhas. Podias ir fazer um penteado diferente, a minha cabeleireira só leva 5 euros. Limpas a casa com água e vinagre?, que nojeira, assim a casa não cheira a nada. Parece que só te vejo a comer couves, que desconsolo, há uns aperitivos no supermercado que são uma maravilha. Água da torneira?, também não há necessidade de ir tão longe, não é um garrafão de água que te vai pôr pobre. Muito me rio contigo, sempre com a marmita para trás e para a frente. Ai foste passear?, vida de rico é outra coisa. Onde?, deus me livre, há sítios melhores, que vida estúpida. Que vida estúpida, que vida estúpida, que vida estúpida. Que vida estúpida. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Tristeza

Carlota era daquelas que não necessitava de afinidade ou contexto para contar das suas dores. Uma dúzia de desconhecidas ficou a saber, sem que tenham perguntado sequer em pensamentos, que Carlota sofria de uma terrível depressão, que tomava vinte calmantes por dia, que os seus amores haviam falhado e que estava de coração partido. Todos os dias aprofundava alguma intimidade sua, já que tinha gente à volta. Usava vestidos até aos pés, muito largos, de cores berrantes, com cheiro a mofo e cheios de manchas. Finalizava os visuais com chapéus escuros, de enormes abas. Um dia, pintou muito a cara e perguntou a todas mal chegou: estou linda, não estou? Todas disseram que sim, enchiam-se de pena dela, e continuaram o trabalho. Carlota ficou contente. 
Certa tarde, vendo no comboio uma colega sua, a uns metros de distância, torceu-se na cadeira e virou-se para trás, para a poder olhar de frente. Puxou conversa, bem alto e para que todos ouvissem: 
- Então, está a gostar do trabalho que temos feito? - Os restantes passageiros, curiosos, torceram-se também para poderem ver quem recebia a mensagem. 
- Sim. - E um sorriso amarelo de desconforto por tanta atenção.
- De que é que está a gostar mais? Não acha a directora espectacular? E aquela pintura que fizemos? - Rejubilava de vaidade, todos seguiam a conversa, ávidos de mais pormenores.
- Sim, sim. Estou a gostar muito. - A colega não estava tão empolgada pelo púlpito que lhe inventaram. 
- Qual é a sua técnica preferida? - Carlota ia forçando, não queria perder aquela oportunidade.
- Hum, gosto do giz... 
- Eu adoro pintura desbotada! Estou a adorar tudo. Faz-me bem, sabe? Faz-me bem à cabeça, ao coração... Não estou a passar por um momento fácil, como sabe, e quando venho para aqui fico logo com outra disposição. É muito bom. Sabe, por causa da depressão, dos calmantes... - Numa guinada imprevisível, e tudo enquanto sorria, agarrou de vez os passageiros. Carlota, chegada à estação, saiu triunfante, com muitos votos de boa tarde e boa noite e até ao dia tal. A colega, que já mal falava - também já não era necessária -, passou a ir a pé para casa.

sábado, 10 de setembro de 2016

Intrusos

Os que se batem pela justiça, os que professam a compaixão, os que respeitam a sua humanidade, os que aparecem e resolvem, os que escolhem acordar antes do nascer do sol, os que só tomam o que cultivam, os que se buscam, os que buscam o outro, os que condenam a condenação, os que deitam as mãos à terra e daí tiram todo o seu sustento, os que erguem as paredes dos seus abrigos, os que agradecem, os que amam.
- Sonhas demasiado, não és deste mundo. - A pequenez.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Incêndio

Falava pomposamente da fazenda que deixou no país natal, e todos os seus detalhes lhe pareciam obra de arte. Ao aperceber-se de que entre os sentados à mesa estava uma vegetariana, resolveu espicaçar:
- Então não comes animais porquê? - A rapariga hesitou antes de responder, já antecipando que a causa da pergunta não era ingénua curiosidade:
- A verdade é que vi um documentário sobre o que passam os animais e fiquei a sentir-me mal com isso... E também por uma questão de saúde...
- Mas os animais também se alimentam de outros animais, é a lei da vida. 
- Eu compreendo, não condeno quem come animais, eu é que prefiro... - Vendo que não haveria grande debate, principiou a descrever, por puro lazer, os momentos em que matou animais na adorada fazenda. Explicou como degolava os cordeiros, a posição em que tinha que os segurar para eles não escaparem, a reacção do pai, que se atrapalhava e só estorvava. Contava tudo com muito gosto, a olhar a vegetariana que se esforçava por passar despercebida. A esposa ia fazendo sorrisos amarelos, também ela não lhe achava piada, mas já devia ter passado o tempo em que ainda se importava. Quando se cansou de falar da fazenda, começou a descrever os seus planos de riqueza: estava no estrangeiro porque tinha ambições. Quando a mulher, talentosa cozinheira, lhe confessou que gostaria de abrir o seu próprio restaurante, ele deu-lhe uma descompostura: que falta de objectivos, que falta de ambição! Já ele, ia dominar a língua estrangeira para poder ingressar numa boa universidade, juntar umas boas dezenas de milhares de euros e regressar à terra para construir moradia a pronto pagamento. Pouco interessava que, tanto tempo depois da chegada, ainda não soubesse o rosa rosae lá do sítio e que, para acalmar a solidão e a saudade, estourasse quanto recebia em recheios para a casa que depois exibia às visitas. Claro que as visitas não podiam tocar - ver é com os olhos! - tal como não podiam sentar-se à vontade no caríssimo sofá, ou pegar no comando da televisão sem um planeamento prévio. Se é para comprar, é para comprar bom e para inglês ver. Do alto do seu conforto, dava com uma mão para tirar com a outra, e palestrava quer os ouvintes fossem voluntários ou não. A mulher sabe disto tudo, mas ai de quem lho diga: falar mal, falo eu, não os outros. Pois se fossem os outros, o despeito tomava-lhe o coração e logo corria em salvação do seu desleal amado: ele dá tudo, ele paga jantares aos amigos, ele deixou cá ficar não sei quem e até lhe deu uma chave, ele trabalha, ela é boa pessoa. Ouvindo-a dá ideia de que o principal esforço é convencer-se a si própria. Quando, muito antes de este casamento se assemelhar a um beco sem saída, lhe perguntaram: ama-lo? é Ele?, ela não respondeu, antes começou a descrever como se entendiam bem nas lides domésticas da casa. Parece que ninguém viu nisto mau presságio. Mas talvez não faça mal. Onde nunca houve faísca, não haverá incêndio.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Revelação

Diz a viúva que o falecido só se fez homem depois de ter voltado do país que o acolheu como imigrante. Antes disso, estalos, socos, insultos, ciúmes, raiva, desespero de se impor e mostrar. Quando regressou de vez, de horizontes mais amplos e de ânimos sossegados, passou a reunir a família à mesa com rara solenidade e exigia o respeito com que passou a tratar toda a gente. Conversava pausadamente, reflectia antes de falar, lia e perguntava. E quando a mulher, que até ao fim há de remoer mágoas passadas, lhe lembrava as dores infligidas, ele compreendia e desculpava-se: eu sei, mas as coisas agora estão diferentes, eu estou diferente. E é facto que desse primeiro homem nunca cheguei a ter vislumbre. Quando, anos antes de morrer, deixou de ser dono do seu corpo e passou a depender de engenhocas para respirar, contou o que fez: adaptei-me, é assim a vida. Não podendo viajar pelo seu próprio pé, comprou um computador, pediu que lhe ensinassem o que fazer, ligou-se à internet e passeava com a ajuda dos mapas virtuais e dos vídeos. Nunca lhe ouvi lamúrias, queixas de má sorte, pedido de esmolas. Morreu velho, cheio de memórias que o envergonhavam, fracturado porque reconstruído e em paz. Não sei se mudou ou se se revelou, como diz o senso comum. Mas pelo caminho, ainda que eu o ignore, achou a dignidade, a única companhia no leito de morte. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Encargos

Os pais de Joel eram gente séria, sem dívidas e sem tento na língua. Cozinhavam ambos maravilhosamente e disso fizeram negócio ambulante, dando de graça a quem entendiam. À custa de tanto e tão árduo trabalho, foram amealhando mais do que os comuns mortais. Berravam muito, sem que o berro significasse raiva. Criaram dois filhos como puderam, sem estudos e muita labuta. Maria e Manuel, seus vizinhos e adolescentes apaixonados, entretinham-se nos intervalos do namoro a dar colo aos pequenos. Quando Joel cresceu, encontrou amor numa rapariga e com ela casou e teve filhos. Sentindo que era hora de pôr o seu nome numa casa, correu à procura de fiadores: Maria e Manuel, já de romance maduro, com filhos e responsabilidades. Disseram que não. Sabiam que Joel se tinha tornado em homem de fraco carácter, de feitio atravessado. Face à recusa, o pai de Joel fez o que fazem os pais pelos filhos: sem olhar às fraquezas do primogénito, por ele lutou; assumiu responsabilidade que não era sua e foi ele próprio pedir ao casal, que conhecia e respeitava há tantos anos, que reconsiderassem. O pai de Joel, como dito, era gente séria - Maria e Manuel assentiram finalmente. 
Muitos anos se passaram. Os pais, à custa de assumirem responsabilidades que não eram suas, perderam tudo e tiveram que recomeçar. Joel e o irmão não se importavam, acreditavam em direitos sem encargos. Um dia, Manuel e Maria receberam uma carta dando conta de falhas impróprias para gente séria: dívidas sem razão de ser, atrasos nos pagamentos, penhoras. Joel e a esposa bateram-lhes à porta, depois de tantos anos de silêncio, e com estranha familiaridade se sentaram no sofá e discorreram as suas mágoas. Choraram dificuldades, como vítimas de inevitabilidades, e anunciaram falência. Feito o discurso, despediram-se com atenciosos cumprimentos e foram fazer vidas desafogadas para longe. Maria e Manuel, que nunca tinham ficado a dever a ninguém, que tinham criado dois filhos com modéstia não por penúria mas por princípio, que nunca tinham tido razões para deixar que a vergonha os dobrasse, ficaram com as incumbências. O pai de Joel há de se chegar à frente, há de matar a vergonha com trabalho. Maria e Manuel, sem culpas mas sem saídas, não tiveram outro remédio senão hipotecar a casa onde criaram os filhos. Joel e a esposa passeiam de queixo erguido. Conta a mãe que a vida lhes corre bem. Talvez por isso não tenham tempo, quando a ocasião surpreende, para olhar nos olhos as pessoas que desgraçaram.