quarta-feira, 27 de julho de 2016

E se...?

Como seria se tivéssemos individualmente que produzir (ou matar) e conservar os nossos próprios alimentos, sem recurso a grandezas e medidas extraordinárias? Se tivéssemos que produzir os nossos fios e os nossos tecidos, se tivéssemos que coser as nossas roupas, fazer os nossos sapatos, e sobretudo, se tivéssemos que ser verdadeiramente responsáveis pelo nosso lixo - por reciclá-lo e decompô-lo? Como seria cada um de nós? Não coloco aqui um cenário de penúria, longe disso; o cenário seria de abundância, mas de responsabilidade e independência. Cada um por si, sem delegar e sem fazer trocas com o vizinho. Pergunto-me quantos de nós comeriam porcos, deitariam roupa e calçado fora porque ao centro comercial chegaram as novas tendências da estação, pergunto-me quem continuaria a achar as embalagens de plástico cómodas e benéficas. E se tentássemos? E se a simplicidade da vida e a pequenez das verdadeiras necessidades voltassem a despontar? 

Entretenimento

Embora não tenha sido por opção, em casa já não tenho televisão nem computador. Apenas um rádio, meia dúzia de discos que não interessam a ninguém, livros, papel, um lápis de carvão e canetas. Quando o miúdo chegou, deitei as mãos à cabeça. Nem os guaches e os lápis de cor tinha, sequer a bola de futebol e os livros cheios de desenhos e fotografias. Como é que o haveria de entreter? Foi simples: deixei-o estar. Em pouco tempo, a máquina de costura era um monstro, a fita métrica um caracol cheio de números, o guarda-roupa um berço para meninos grandes, os meus discos a banda sonora de histórias improvisadas mediante a melodia. Sem distracções, a este miúdo, que se alimenta como se comer fosse castigo, até a melancia pareceu  interessante e apetecível. Pouco fiz. Cada vez mais me convenço de que não forçar a infância é a única forma de a respeitar. 

Esquisitices

Há de ser universal: quando eu tinha uns doze ou treze anos, uma senhora viu beleza nas minhas mãos; a outra que lá estava não achou justo: tem as mãos bonitas porque não faz nada em casa! Daqui a uns anos é que se vai ver. Foi a mesma mulher que. aquando do meu décimo oitavo aniversário, me chamou para me dizer - como quem quer estragar alegria - quando deres por ti, estás nos trinta. Continuou: eu com a tua idade também era muito jeitosa, mas o tempo passa e tu vais ver como vais ficar. Exemplificou arregaçando a saia e exibindo as coxas colossais esburacadas de celulite. Achei sempre divertido. Quando a minha anca começou a alargar, uma menina da minha idade que nunca chegou a fazer-se mulher veio chamar-me defeituosa. Hoje as minhas mãos não sofrem com as lides domésticas e o meu corpo, que muda - e bem - com a idade, continua a servir o seu propósito: abrigar-me e levar-me onde é preciso. 
Quando havia festas, iam às seis da manhã para a cabeleireira, pôr pinturas e penteados carnavalescos. Já eu apenas demonstrava falta de gosto por aparecer nos restaurantes, independentemente da ocasião, de cara limpa e cabelo ainda molhado. Neste problema muitas outras mulheres repararam. Numa determinada empresa por onde passei, as minhas colegas achavam-me pálida e moribunda, e perguntavam-me frequentemente se estava doente ou se tinha dormido mal. Entendia-as: se passasse muito tempo a olhá-las e a seguir me visse ao espelho, também aos meus olhos parecia translúcida. Um dia, uma disse-me:
- Só me maquilho porque preciso. Se não me maquilhar, fico como tu: com esse ar de doente, de defunta. - Olhei-a, vi que naquela frase não havia maldade, apenas franqueza. Soltei uma gargalhada - ainda hoje gosto de contar essa história, faço sempre o interlocutor rir - e agradeci ironicamente. - Não me leves a mal, eu sou mesmo como tu. Tenho a pele pálida e sem cor. 
Sem cor significava apenas cor de pele. Lábios vermelhos como pimentos, só se sangrar; roxos, só se apanhar muito frio. Se algum dia me achasse de pálpebras verdes ou azuis, ficaria alarmada. E bochechas rosadas, só depois de um bom copo de tinto. Parece-me justo. 
Certo dia, uma colega que tinha estado de baixa devido a uma gripe, veio ter às casas-de-banho para se lamentar do fraco aspecto. A cara estava inchada como quem acabara de acordar e o cabelo era surpreendentemente ondulado se ela não o domesticasse. Depois lá esclareceu: é que não tomei banho antes de vir para aqui. Preciso de me maquilhar. Rica solução. Logo se apressaram a polvilhá-la com - jamais esquecerei - uns pós a que chamaram tons terra. No fim, perguntou-me se estava bem. Não sabia o que dizer, não queria ofender nem mentir; respondi-lhe então estás com mais cor. Serviu. Então ela olhou-me de perto e disse:
- Tu é que tens sorte, não precisas de te maquilhar.
- Tu também não, nem de te maquilhares nem de esticares o cabelo. 
Achou graça e concluiu a conversa: foste sempre muito esquisita. Eu?

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ingenuidade e desinteresse

Um homem de meia-idade recorda a sua juventude: o ultramar, a ditadura, a guerra, o 25 de abril, a descolonização. Apercebeu-se cedo da injustiça, do ódio, das falhas da humanidade. Conta o que via, ouvia e pensava nesse tempo. Depois busca o exemplo do filho, um adolescente, e revela o choque que é ver a sua ingenuidade política; mais: deteta-lhe um perigoso desinteresse. Pegando no caso do filho e no seu, alarga e generaliza: não é só ele, é toda a geração dele que, ao contrário da minha... Espanta-me. O adolescente foi enviado para a escola aos três ou quatro anos, com horas monitorizadas para rir e brincar e com as tarefas de manutenção de diversão e criatividade já pré-definidas por outros. Durante os dez anos seguintes, fecharam-no em salas cheias de gente da sua idade e proibiram-nos de falar, de estar em pé, de fazer muitas perguntas e de contestar o que lhes transmitiam. Sem olharem a circunstâncias, a todos avaliaram do mesmo modo oco e mecânico, avaliando capacidade de memorização quando julgavam avaliar inteligência e sabedoria. No fim de cada dia, colocaram-no diante de um ecrã que centenas de pessoas transformam num púlpito que lhes permite determinar sentenças favoráveis a quem tem pouco interesse que isto mude. E o pai - o que poderia ele fazer? - senta-se, recosta-se e fala - do seu filho, que ainda está longe de ser homem - como se fosse um ser passivo, distante, que nada pode senão assistir. Digo que sim a tudo. Sim: ingenuidade política. Sim: perigoso desinteresse.   

terça-feira, 26 de abril de 2016

Castigo

Entraram com a criança e, num tom determinado e ríspido, anunciaram:
- Hoje não há tablet, nem telemóvel, televisão... nada! Está de castigo, que é para ele aprender a não se portar mal. - Beijaram, zangados, a face do miúdo, entregaram-no à avó e foram trabalhar. A avó, encaminhando o pequeno Pedro para o interior da casa, ia perguntando com ternura: que fizeste para a mãe e o pai estarem zangados? A resposta já não ouvi. 
Pedro nasceu sereno e amoroso. Dormia bem, acordava a sorrir e a pedir mimo. Sossego e carinho era quanto bastava para o acalmar em momentos mais difíceis. Como tantos outros pais, os seus também achavam graça à sua capacidade de imitar o que via. Quando o pai irritava a mãe, a mãe, com o menino no colo, dizia dá um soco ao pai, cerrava-lhe o punho e ela própria levava a pequena mão à cara do inimigo: pumba, que é para o pai se portar bem. O pai ria, a mãe ria, o bebé primeiro olhava confuso e depois juntava-se ao riso. O pai fazia brincadeiras semelhantes quando era a sua vez de segurar o filho. Dá tau-tau na mãe, para ela aprender. De tão inofensivo, os três riam e repetiam o momento. Quando o pequeno começou a dar mais quedas do que passos, os pais ensinaram-no a defender-se do que o magoava: caíste ao chão? Bate no chão, que foi mau para ti. Trilhaste a mão na gaveta? Dá um murro na gaveta. É certo que alivia. Quando via um insecto, os pais gritavam mata o bicho, para não te fazer mal. Quando começou a querer ver bonecos em vez das séries da televisão por cabo, os pais puseram-lhe uma televisão no quarto para todos poderem desfrutar sossegados das maravilhas que os santos ecrãs transmitem. Não gostavam que o filho se sujasse ou andasse descalço, ou que passasse muito tempo ao ar livre porque o sol está muito perigoso. Quando Pedro fez quatro anos, já tinha um tablet, uma playstation e uma PSP, um telemóvel e uma televisão. Um luxo. Também já tinha mau feitio. Quando o contrariavam, levantava a mão e punha uma expressão ameaçadora, hábito que demorou muito tempo a reverter mas que não anulou o instinto. Depois passou a atirar-se para o chão, gritando desesperadamente, incapaz de conter a frustração de não se poder defender e de não poder levar a sua avante. Às vezes, quem cuidava dele limitava-se a esperar que passasse. Outras vezes, segurava-o nos braços procurando consolar as suas desilusões. Nas vezes restantes, faltando paciência e compaixão, usava a chamada palmadinha pedagógica. Ou os castigos que, naquele dia, os pais lhe impuseram. Achava eu que removerem os calmantes tecnológicos era um presente e era afinal um castigo. Dizem-me que não sei o que digo ou o que penso porque não sou mãe. Parece que não tenho autoridade. Respondo que de facto pouco ou nada sei. E também é verdade que são sempre mais as perguntas do que as respostas que tenho. Então, oxalá alguém me respondesse, com a misericórdia que me devem pela minha ignorância, pelo menos a esta: quando é que devolver uma criança à infância se terá tornado na maior das punições? Silêncio. 

sábado, 23 de abril de 2016

Uma grande família

Numa dessas multinacionais cujos donos milionários ninguém conhece, os chefes recebiam os novatos com muita emoção: bem-vindos a esta grande família. À primeira vista até parecia uma coisa diferente, os trabalhadores todos cheios de beijinhos e outras doçuras para distribuir, uma preocupação desmedida pelas lágrimas alheias, muitas festas para fortalecer o espírito de equipa. Neste lugar, marcava-se reuniões às sete da manhã para que ninguém tivesse que parar de trabalhar para ouvir os chefes. Eram reuniões extraordinárias: debatia-se durante meia hora como personalizar os cacifos e todos participavam com alegria; fazia-se jogos de mímica e outros que tais para fortalecer os laços de união; anunciava-se os lucros astronómicos da empresa e incluía-se no discurso o lugar-comum e é tudo graças a vocês, muito obrigado, equipa para que os empregados se distraíssem da exploração. Resultava tudo muito bem. Os que ficavam a trabalhar horas extra de graça faziam-no de peito cheio, imbuídos de um sentido de missão. Para dar mais lucro aos patrões que nem conheciam, encarregavam-se de distribuir eles próprios, nas suas poucas horas livres, as publicidades da empresa. Ora para haver tanta devoção numa coisa, outra coisa qualquer tem que ficar por fazer. Por isso, quando os relógios biológicos despertavam, arranjavam colegas que dessem bons cônjuges e por ali se ficavam. Tinham bebés que mal viam e usavam as suas fotografias para personalizar os cacifos. Indo de férias, descarregavam todas as fotografias para o facebook, não fosse alguém achar que estavam a desperdiçar a vida. Nas festas anuais em que todos se juntavam num bar alugado por uma noite, às vezes as coisas descarrilavam. Mas não era por mal, claro, afinal estava escuro, o álcool é tramado e era dia de festa. Uma das chefes esteve lá mais de uma década. Durante esse tempo, novos países foram reconhecidos, outros foram desfeitos por guerras, assinou-se tratados e convenções, deu-se a grande recessão e a revolução digital. Tantos morreram, tantos nasceram. Tantos se fizeram gente. O mundo não pára. Durante esse tempo, todos os dias dessa mulher foram iguais. Ia trabalhar enfunada e pouco fazia, além de infernizar a vida dos súbditos. Um dia, ficou doente. Primeiro pensou-se que era uma coisita de nada. Mudou de ideias quando se viu presa a uma cama de hospital. Os pais da grande família, que bajulavam a ralé para que se fizesse pouco barulho, não gostaram. Puseram-na na rua - a ela, que tão bem instalada estava, tão segura do seu posto, tão alegre com a vida precária dos seus lacaios. Ela, que durante tantos anos se devotou àquele projeto como se dele tirasse verdadeiro proveito. Eu ficaria assustada com o aviso, se fizesse parte do clã. Mas parece que ninguém ficou. Porque no momento em que os tiranos a puseram de parte, todos se colocaram no lado dos invencíveis, não fosse o diabo tecê-las. E o tempo passa. Tanto continua a acontecer. A grande família vai patinando. Resta saber quando cairá.

Engenho

Fico surpreendida com o engenho do ser humano. Em menos de vinte minutos, este senhor explica como é que daqui a vinte anos poderemos estar a viver em Marte. Um dos problemas deste planeta é que, lá, nem água nem oxigénio. Parece um problema. Mas aparentemente não é. Há cientistas e engenheiros a conceber máquinas que permitam manipular inteiramente todo o planeta. Pôr água a correr no meio das rochas, respirar através de máquinas enquanto as árvores plantadas não crescerem, viver debaixo de terra enquanto o clima for agreste para a nossa espécie. Fala-se até em modificação genética: assim, a humanidade dividir-se-ia em dois ramos distintos, os da Terra e os de Marte. Quando tudo estivesse a postos - o planeta e o grupo de humanos convenientemente manipulados - arranjar-se-ia meio de executar a travessia de quase um ano. A tecnologia necessária para suportar isto existe e está a ser desenvolvida a cada dia que passa. Impressiona. Impressiona mais ainda pensar porque é que será mais fácil modificar toda uma espécie e todo um planeta em vez de se parar de estragar o que já temos. É mais fácil inventar oxigénio do que parar de  estragar o ar que já cá está para nos encher os pulmões? É mais plausível desencantar água de um planeta que arde do que parar de conspurcar os oceanos? Espanta. Tanto engenho. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O guardador

Há muitos anos, encontrei um livro pequenino e velho com o nome da minha mãe manuscrito a tinta azul e com um apontamento a lápis: 35$00. Era o Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, do Alves Redol. Li-o cheia de gosto. Se tivesse que descrever o livro numa palavra, escolheria água. Não percebo nada de crítica literária, falo com os sentidos. 

Se quer arrancar à terra seara que se veja, o lavrador não pode marcar preço para canseiras e cuidados. Tudo começa nos projectos, nas insónias prolongadas a que se entrega, como nos tempos em que os generais resolviam batalhas. E com os olhos que devassam tudo, e com pés que pisam a leira para lhe lembrar: «cá estou mais um ano, cá estamos, pago em suor tudo o que me puderes dar...» 

O que têm de bom as palavras, diria eu, é que as entrelinhas são tantas quantas as vezes que se leia. E tal como a água mata a sede, cada pedaço da história ilumina uma dor diferente ou uma alegria que ainda não se conhecia. Só temos que saber guardar. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O lugar certo

Disseram-me há uns dias que a escola, com todos os seus problemas, é o lugar certo para as crianças. Quem terá decidido que é certo aprender na escola, e não no campo, as partes de uma planta? Ou que é certo estudar geografia e geologia fechado numa sala? Quem sentenciou que o que está certo é a criança aprender história num quadro de lousa e não nas ruas e nas ruínas e nos museus? Quem decide o que está certo para todos e com que ferramentas e autoridade? Porque é que o lugar certo para as crianças não é o mundo inteiro ou o que elas quiserem? Será errado ensinar uma criança a ler com a poesia de Caeiro, à sombra de uma árvore ou com os pés enterrados na areia? Será errado levar uma criança para o cimo de uma serra para lhe contar que pedras são aquelas, o que nos diz o sol e qual o curso do rio? Que crime é esse de não interromper a brincadeira com o som de uma campainha estridente e programada para os dez minutos? Podia responder a todas as perguntas com silêncio e vergonha. Talvez esse lugar certo seja aquele onde, por pouco fazermos, pouco temos a recear. Um lugar onde perguntar seja uma ofensa, uma afronta que só a brutalidade dos tiranos possa conter. 

Animais

Quando me começo a esquecer da minha humanidade por mais que o corpo me diga que algo não está bem, tento imaginar outros animais no meu lugar. Em que mundo se pode interromper e contrariar a natureza de um bicho sem que ele se faça monstro? Somos tão animais como aqueles que não nos importamos de matar. Talvez o respeito pelo que em nós é animalesco - não será tudo? - nos salvasse. Até lá, continuaremos a definhar dentro de caixotes de betão encavalitados uns nos outros, continuaremos a acreditar que comer e dormir são questões menores, continuaremos a deixar que nos arranquem as crias mal elas nasçam, continuaremos a não esmagar quem nos proíbe de ver o céu.

Como generalizar

Aproveitando boleia e boa companhia, entrei na carrinha de manhã cedo e, depois de dezenas de quilómetros, escolhi a beira de um rio discreto para adiantar uma camisola. É a vantagem de ter em mãos um trabalho portátil. Sentei-me no primeiro degrau, pus a mochila e a termos ao meu lado, o novelo num saco de pano que pousei no chão, e só para contemplar a paisagem ia levantando os olhos. Durante as horas que se seguiram, dezenas de pessoas passaram por mim para o exercício físico matinal. Ainda assim, conseguia escutar nitidamente o balanço das águas do rio e os avisos das gaivotas. Quando o comboio passava, ao longe, já eu sabia que passaria. O som não engana. É um luxo, isto de haver sítios em que ainda consigamos ouvir. Ao final da manhã, um grupo de adolescentes estridentes aproxima-se do rio. Não eram portugueses e percebi depois que vinham numa excursão. Espalharam-se pelas escadas, à minha volta, falaram alto, riram, tiraram selfies com uma alegria imprevista e em dez minutos seguiram para outra paragem. Durante esse bocado, mal levantei os olhos. Afinal, pouco ouvia e menos ainda conseguia enxergar. 
Quando chegou a hora de regressar a casa, entrei na carrinha e contei o episódio. Ele sorriu e disse:
- Se calhar, quando voltarem a casa, vão dizer que os portugueses tricotam muito nos espaços públicos.  

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Tempo

À mesa, como amigos, esmiúçam pequenos embaraços com fórmulas de humor fácil, como se fossem as vítimas eleitas de um deus espirituoso que só a eles tem como alvo. No fim de cada história, dissertam acerca da evidente universalidade desses imprevistos, pequenas vergonhas, humilhações traumáticas que deixam de o ser se forem transformadas em piadas. Manifestam um orgulho mal disfarçado por se considerarem capazes de unir toda a humanidade por meio da troça, como se a troça do banal fosse novidade, um novo movimento - por eles descoberto - capaz de juntar inimigos e suspender guerras. Um quer saber de onde vem a genialidade do outro, buscam razões, destinos que enfim se cumpram, desembocam na ascendência internacional e cheia de homens brilhantes cuja diversidade foi convergir, séculos depois, nesse receptáculo de inteligência refinada. Resumem a herança intelectual, reparam nos traços de personalidade que pertencem a cada pátria, rindo com condescendência quando chega a hora de atribuir bandeira a cada defeito. Vão então vasculhar a infância, todos sabem que os iluminados já nascem especiais, já elevados e à frente do seu tempo até no momento em que são paridos. Dão uma guinada - como é de bem - para o panorama político que serve de palco à epopeia que é a vida de cada um. Os jovens dessa altura são diferentes de todos os outros: mais vivos, mais sábios, mais vitais, mais corajosos. Também enfrentavam mais perigos, nem a pancadaria e a tortura os calavam, subvertiam até a dormir. Procuram afinidades, memórias que coincidam no tempo, e é claro que louvam esse tempo. Esse tempo que parece ser encerrado, homogéneo, povoado apenas de seres irrepetíveis e em tudo superiores. Contrapõem com a atualidade, os jovens de hoje em dia, a apatia de hoje em dia, as manias de hoje em dia, as modas de hoje em dia, os políticos de hoje em dia. Lamento que não haja quem lhes segrede, baixinho para não envergonhar, que ainda não morreram. Que enquanto respirarem, cada segundo será ainda o seu tempo, cada tragédia lhes pertencerá também. Daqui a quarenta anos, talvez cá estejam ainda. Quando lhes perguntarem, em horário nobre, o que têm a dizer de si próprios e do que fizeram, hão de incluir a segunda metade da vida também, a que hoje ainda está por vir. Se eu ainda cá estiver, hei de ter gosto em saber o que terão eles a dizer sobre aquele tempo, aquele que o relógio de hoje marca e que tantos vivos lamentam até ao limite do cansaço.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Bengala

Pouco depois do princípio da paixão, o corpo acusou o pecado e Paula fez o que mandavam os costumes: casou, nova e à pressa. A cerimónia foi planeada sem floreados, como dever burocrático. Meses depois, nasceu o primogénito que, por culpa de mágoas mal resolvidas, foi açoitado pelo pai até se fazer homem. Pouco depois veio o segundo filho, recebido com outra brandura. Finalmente, a mais nova, que nunca temeu ninguém, nem sequer o pai. Paula, que casou adolescente e adolescente há de morrer, nunca teve temperamento para o debate. Argumentar, ouvir, contra-argumentar, elevar a voz apenas até ao limite do democrático, concordar em discordar - nada. Já em pequena era de bater portas, dar murros na mesa, responder torto para desarmar o inimigo de prudência. Com o marido não foi diferente. Faltando-lhe paciência e coração para o enfrentar, pôs-se ao nível dos filhos: ria e falava à socapa, facilitava as fugas dos mais novos, fazia a festa na ausência do chefe de família e escondia nódoas com os tapetes quando ouvia a fechadura na porta. O incómodo que é a sua presença, o marido sabe-o bem. Paula não se coíbe de, como uma filha indomável, se queixar das suas regras, dos seus humores, da sua falta de alegria e vitalidade. Volta e meia, aproveita um jantar de família para dizer diante de todos, com uma rebeldia púbere: és tão chato, podias ir embora. Ninguém lhe liga. Aqui há dias, os vizinhos juntaram-se à beira do portão. O mais velho, casado há cinquenta anos, dizia merecer uma medalha por aturar a mulher há tanto tempo. Paula aproveitou para fazer rir a plateia através dos seus desejos de ver o marido pelas costas. A outra que lá estava achou mal: isso é conversa? Então, Paula pôs um tom de mulher séria e revelou os seus sentimentos:
- Uma pessoa fala mas é da boca para fora, claro. Com os filhos a ir embora, só nos resta a pessoa com quem casámos para não ficarmos sozinhos. - e finalizou, resumindo tudo na perfeição: - É como uma bengala.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Posse

Mariazinha, a caseira do senhor António, ficou danada quando o senhorio casou com Filipa e não com a sua sogra. A esperança, durante tanto tempo cultivada, de ver o seu marido herdeiro daquele bocado de terra desvaneceu-se num instante. Remoeu isso até ao fim dos seus dias, bufando a cada passo: isto podia ser tudo meu. A sua casa ficava ao lado da oficina onde António trabalhava a madeira e fazia o vinho, e também por isso ela bufava: sempre no meu pátio, sempre a passar na minha porta. O cão de Mariazinha estragava os canteiros de flores de Filipa e tanta era a raiva que disso se fez motivo de guerra. Então Mariazinha incumbiu o esposo Henrique de erguer paredes de cimento no lugar onde António fazia os seus trabalhos. Seria uma casota. Ou uma provocação, pensou António, que não se demorou a desfazer as pequenas paredes mal começaram a ser erguidas. Mariazinha saiu disparada pela cozinha e começou aos gritos, António gritou mais alto. Filipa, ouvindo, desceu da sua casa e juntou-se à festa. Henrique, vendo naquela blasfémia uma urgência, nem vestiu as calças antes de vir impor a sua verdade. Os quatro gritando, um armado, outro de cuecas, as duas desalinhadas. Não mais se falaram. Mariazinha, má de feitio e de coração, remoendo as suas derrotas, até ao fim da vida procurou razões para fazer valer os seus direitos. Quando os netos de António e Filipa herdaram tudo, Mariazinha e Henrique ainda cá estavam, ela revoltada por ter que prestar contas a gente que viu nascer. Quando os bisnetos de António e Filipa começaram a nascer e a fazer barulho, novos pretextos lhe apareceram. Todos os dias berrava, fazia queixas e impunha proibições. Quando os bisnetos cresceram e começaram a pegar em bicicletas e bolas de futebol e em tudo o que mais lhes parecesse bom de brincar, ela redobrou o queixume e a autoridade. E os bisnetos, se já tinham idade para fazer tamanha barulheira, também já tinham tino para lhe dar resposta. E davam, davam sempre resposta. Pediam argumentos: porque é que não podemos andar de bicicleta? porque é que não podemos falar alto às três da tarde? porque é que não podemos passar neste caminho se este caminho não é seu? E ela resumia, tudo muito mal amanhado, e ia dar tudo ao mesmo: porque eu não quero. Felizmente ninguém parou de brincar por causa dela. Muitos anos passaram. Mariazinha morreu. Henrique, homem preguiçoso e marido distante e indiferente, cortou a água e a luz, tirou os móveis da casa, trancou-a e saiu para não mais voltar. Todos os meses aparece para dar o conto mensal que deve pela chave que ainda guarda no bolso. Mas agora os bisnetos cresceram. Querem as casas desocupadas, querem limpar as manchas de humidade, querem pôr azulejos, querem um chão bonito, querem cortinas novas, querem fogões e sofás, querem desligar a televisão nas horas das notícias e ter filhos. Pediram-lhe com jeito pela chave. Henrique levanta o queixo e fala sem aprumos: não entrego a chave. Em nome da paz, ainda o tratam com paciência. Eu, que não sou tão generosa, diria que algures no universo se há de ouvir uma voz a bufar: isto devia ser tudo meu. 

O monstro

Filipe era alegre, risonho e brincalhão. Partilhava a casa com colegas e com o seu grande amigo, também ele Filipe. Os pais do amigo iam lá visitar o filho muitas vezes, e em todas as ocasiões o convidavam a sentar-se à mesa e a juntar-se aos passeios. Gostavam muito dele, os pais do amigo. Bom rapaz, muito simpático e bem-disposto, simples, e ainda por cima - que engraçado! - tinham o mesmo nome. Um dia, Filipe apaixonou-se e, não conseguindo digerir bem as saudades, passou a fazer do seu pequeno quarto um lar para dois. Passava os dias com a namorada e com o seu amigo, comiam juntos, saíam juntos e, quando Filipe tinha trabalho fora de horas, para que a namorada não ficasse só e rabugenta, encomendava a companhia do amigo. Leva-a a comer fora ou a passear, só para ela não estar aí sozinha e aborrecida. Julgando simpático juntar a mulher que amava com o homem que tinha como irmão, a situação foi-se repetindo. Pois se a sua namorada de leal pouco tinha, o amigo não lhe ficava atrás. A namorada foi procurando no cunhado emprestado tudo o que lhe faltava, aproveitando para confidenciar as falhas do homem que escolhera. O amigo, não tendo jeito para rejeitar carícias ao ego, não se coibia de lhe receber desejos, confissões e demonstrações de afeto. Quando se juntavam os três, o ambiente passou a ser de intriga e raiva. A namorada, insatisfeita e insaciada, sempre tecendo críticas e humilhações ao homem que a abraçava todas as noites; o amigo sempre enciumado e provocador atirando chagas à fogueira; Filipe sempre com uma raiva crescente, ainda não sabia bem de quê. Após muita novela, o amigo decidiu fazer as malas e ir para bem longe, numa reação a qualquer despeito difícil de decifrar. Filipe e a namorada ficaram no mesmo sítio. Passaram-se anos. Filipe, o rapaz simpático e ingénuo, passou a resolver os problemas com a força e ameaças de suicídio. A namorada ainda liga ao amigo chorando a sua sina. O amigo enche o peito, dá-lhe consolo e conta a todos como louva a sua decisão atempada de ter fugido de um homem que afinal é um monstro. Parece que o rapaz tem a doença do pai. O pai também não era bom da cabeça.