quarta-feira, 19 de abril de 2017

Onde foi a poesia?

Depois de uma vida a sofrer tanto as alegrias como as tristezas, a achar poesia em tudo quanto era lugar e a reparar no que me rodeava com lentes mais fortes do que os meus olhos aguentavam, alguma coisa se calou. Vivo sossegada, sem grandes exaltações, durmo bem e tenho saúde como nunca antes. Das minhas alegrias, fazem parte coisitas quotidianas como o bom tempo, que seca a roupa depressa. A tragédia já não me parece poética e sofrível, mas engraçada. De tanto rir para espantar males, aprendi a procurar o absurdo e o risível. Foram-se os poemas, veio o contentamento. Lembro-me de uma prece que já não sei onde ouvia: deus nos livre da mediania. E lembro-me de um lamento que ouvi há muitos anos sobre a vida ser uma chatice:
- Olha aquela mulher que vem a passar, por exemplo. - E era uma mulher jovem mas gasta, de fato-de-treino e cabelo mal amanhado, carregando sacos de mercearias. - A vida dela deve ser miserável também.
E eu achei uma parvoíce e retorqui que se espera demais da vida, que a vida não tem que ser épica, grandiosa, espampanante, que ser feliz pode ser só ir comprar mercearias com pessoas de quem gostamos. Ia dizer que estou bem, mas que tenho saudades da poesia. Ocorreu-me mesmo agora que se calhar rir e reparar na mediania também pode ser poema.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

História

É com fascínio e ternura que assisto à redescoberta do que antes de mim tomou lugar. Se em tempos passados, embriagados pela ideia de progresso, se jurou que o destino da humanidade era o gradual melhoramento até à perfeição, hoje encontro dúvidas em demasiados rostos - incluindo no meu. Ser posto no mundo sem saber que mundo é este, será talvez meio caminho andado para a repetição dos erros. Não gosto de falar em natureza humana e misturar princípios morais; entendo por natureza humana a posição dos órgãos, a função dos sistemas, o esqueleto, os sentidos, a matéria. Falar de ódio ou honestidade, metaforizar a espinha dorsal, trocar sentidos por sentimentos, é coisa de que procuro abster-me por não saber que chegue. Mas por que haveria a nossa espécie de caminhar, inteira, para lugar algum? Seremos parte de um todo pensante, superior em hierarquia, capaz de guinar para onde quiser, alheio às partes individuais que o compõem? Será a própria humanidade um bicho racional, constituído por pedaços soltos? 
Encontro a crença no caminho do aperfeiçoamento nas mais variadas ocasiões. Isto tem 30 anos; vê lá, fazer-se uma coisa destas naquele tempo...! - como se o passado ficasse votado à inferioridade, à rudeza, à ignorância. Como se cada geração correspondesse a um mais avançado estádio evolutivo. Adivinharia Platão que no século XXI, o século da avançada aldeia global, haveria gente a temer cor de pele, idioma, rezas e adorações? 
Ainda assim, vou regando a fé no aperfeiçoamento. Ajuda a subir quando os santos descansam do auxílio que deram na descida. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Regresso

Regresso ao José Mattoso para recapitular o princípio. Em pouco tempo, a mente fervilha e o corpo esquece que, lá fora, tudo arde.
Leio sobre o clima e pergunto-me durante quanto mais tempo serão válidos os ensinamentos acerca do assunto. Leio sobre a indústria têxtil, tão velha e persistente, e espreito os meus fios de lã. Leio sobre a pobreza do solo português e a sua fraca vocação agrícola e duvido, enquanto espreito as árvores de fruto que há tantos anos rasgaram a terra preta. Leio sobre as casas de pedra e de taipa e reparo no muro irregular de pedregulhos pegados uns nos outros. Penso nos meus fios de algodão, nos panos de linho, nas sementes que ficaram depois de devorar os pêssegos, nas paredes de pedra pobre da casa. Tento voltar ao começo. Cresci no meio dos piores presságios, convencida de que teria que inventar qualquer coisa grandiosa para subsistir. Mas vejo que não: invenções grandiosas servem (será que sim?) para dar alimento à imaginação. Para subsistir, não invento - descubro. Hoje procuro as respostas como quem busca um tesouro enterrado - velho e esquecido, mas de esplendoroso valor.

Agosto de 2016

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Esforços e encargos

Desde que comecei a sair de casa demasiado cedo e a chegar demasiado tarde, tenho sido alvo de curiosidades. Como é que durmo, como é que almoço, como é que janto, como é que mantenho a casa em ordem, será que passo os fins-de-semana como uma escrava a preparar a semana seguinte, e por aí adiante. Além de perguntas, também sou alvo de agoiros e péssimos pressentimentos: a minha vida há de ficar uma desgraça, sem qualidade, divertimento ou descanso, não hei de resistir muito tempo, o mais provável é que no fim se veja que nada ficou bem feito e que todo o meu esforço terá sido em vão. Na verdade, não fossem as saudades de casa e de quem a partilha comigo, estaria tudo mais que bem. Tudo o que precisa de ser feito é feito, com mais ou menos tempo para engonhar, e há sempre tempo para o que importa.
Depois dessas perguntas, surge a preocupação com o homem com quem vivo: como é que ele come agora que não estás? Deixas a comida dele no congelador ou fazes quando chegas à noite? Então? Ele tem que ir comer fora? Estivesse acompanhada de gente vinda de terras de outros costumes e presumir-se-ia que me apaixonei por um enfermo, um desgraçado que votei ao abandono e que, por muita vontade que tenha, não encontra meio de se valer a si próprio. Ainda não experimentei ficar espantada com a pergunta, respondo naturalmente e recebo em troca uma expressão de surpresa e agrado. Dizem-me que tenho muita sorte, que é bem bom que me tenha calhado um que se desenrasca, que vai fazendo as suas coisinhas e que me ajuda. Não fico ofendida, não fico cheia de vontade de gritar o feminismo, como se fosse evangelho que pudesse pregar, nem me regozijo com as considerações alheias acerca da minha boa fortuna. Acho graça. Tem a sua piada que me presumam senhora dos meus iguais e que vejam no meu esforço o encargo dos outros. A propósito disto.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Corpo humano

Lembro-me agora de uma chefe que tive que me tratava mal e que frequentemente desprezava a minha inteligência: pensa! pensa!, quando lhe fazia uma pergunta. Na verdade, volta e meia reconhecia-me mérito intelectual e, para casar as contraditórias opiniões a meu respeito, concluía: enches o teu cérebro com coisas sem interesse e o que importa fica para trás. Não lhe sabia explicar que era cansaço, desconcentração, que não era inaptidão cognitiva. Também não sabia explicar a ninguém como é que eu, que tanto adorava ler, por vezes perdia uma manhã inteira a tentar ler um parágrafo e acabava por faltar a exames por causa disso. Ou como é que durante a condução por vezes me falhavam pormenores que eram óbvios para todos os outros. Ia à farmácia pedir drogas que agilizassem o meu raciocínio e a minha capacidade de concentração mas foi sempre sol de pouca dura. Será a ansiedade? Será sono a menos? Será que é por não amar o que estou a fazer? Talvez precisasse de mudar de vida, de virar costas a tudo e procurar outros caminhos. Não. Afinal é apenas hipotensão crónica, mas só metade do corpo desmaia. Tantos anos a treinar o palato para apreciar os alimentos por aquilo que eles são e afinal os pedidos eram outros. O corpo é que sabe. O corpo é que paga. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Certezas

Sobre tudo tantos têm opiniões tão arranjadas e prontas a entregar, que quase me sinto rodeada dos mais lúcidos e brilhantes cientistas. A cada diálogo surge uma afirmação redondinha, perfeita, bem acabada, capaz de resumir, em meia dúzia de palavras, as causas e os resultados de todas as coisas. De tudo vou dar a comer aos meus filhos; aliás: faz-lhes bem experimentarem de tudo na infância. Alguém duvida, franze o sobrolho. Tudo? Isto que digo é mesmo assim: as crianças têm que provar de tudo para conseguirem desenvolver e não sei quê do palato e das texturas. Rio para dentro, imaginando qual seria a reação destes pais se os filhos quisessem expandir as possibilidades do palato comendo cachorrinhos e escaravelhos, como há quem faça noutras terras. Todas as prostitutas são doentes mentais, porque só assim pode uma mulher vender o corpo. Então e a miséria? Nariz para cima, óculos ajeitados: há sempre uma alternativa, sempre. Mas já leste os estudos sobre isso? Não, mas também nunca é preciso, porque se conhece sempre alguém que tem um amigo que disse e fez, está o caso comprovado. Além destas expressões grandiosas sobre os caminhos de cada um, há as corriqueiras, que me parecem ser resultado de um empirismo muito enferrujado, mal exercido e anunciado por mero impulso. São os pobres que mais praticam a caridade, os homens têm dificuldades com o compromisso, as crianças são cruéis, os gatos traiçoeiros, e assim se espreme o que nos rodeia até tudo caber em gavetinhas e a casa ficar arrumada. 
Apesar de todas as coisas que me ocorrem quando ouço uma sentença deste género, surgiu-me o palpite de que isto possa ser um esforço, tão humilde e falível como o que faço quando escrevo, de perceber. Mas quanto mais tento perceber seja o que for, mais hesitante me torno. Talvez por isso tenha acumulado, ao longo dos anos, um enorme pavor de abrir a boca para opinar. Perante as certezas alheias sobre tudo o que o nosso corpo possa alcançar, baixo os olhos e dou uma guinada para a banalidade. Falo do tempo, da comida, do cansaço, da gula. Tem resultado sempre, como resulta atirar milho aos pombos.

sábado, 19 de novembro de 2016

Liberdade

Arriscaria dizer que somos nós os nossos próprios carrascos. Todos os grilhões que arrastamos todos os dias são nossos, apesar de a todos baptizarmos com outros nomes. Talvez a liberdade seja compreender que ser inconsequente é, na maior parte das vezes, afinal a maior das prudências.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Os alarmistas

A desvantagem do conhecimento acabado de arrumar é que goza do cepticismo de todos os que ainda não souberam da novidade. O que deveria ser humildade, curiosidade, um certo pudor até da própria ignorância, dá lugar à arrogância esparramada, ao conselho que jamais foi requisitado, à ilusão de sabedoria que urge demonstrar. O açúcar refinado faz mal? Paranóia. Meditar tem efeitos positivos sobre a saúde? Feitiçaria. O nível das águas do  mar vai subir? Discurso apocalíptico. Acaba-se a conversa e seguem caminho os sábios, tão seguros de si mas tão confusos com os cataclismos que tomam lugar - dentro e fora do corpo. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Hoje

É o dia em que se regressa ao sótão onde ficaram esquecidas as misérias, escondidas debaixo do mais belo manto, destinadas à putrefacção. Afinal precisamos ainda de rebuscar alegria, calma, sobrevivência, tal como afinal não levamos no bolso assim tanta sabedoria. Há que sacudir do corpo todos os demónios que nos deram a engolir, que respirámos, que ouvimos, que vimos, que entraram pela nossa pele. Expurgar o medo e a ignorância e arregaçar as mangas, mergulhar as mãos na terra, chorá-la, para enterrar e para fazer brotar. 
Esperemos que a pele caia morta. Esperemos que renasça.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Moderadores

Eu, que nunca achei graça a felinos, vejo-me agora de coração aberto e colo disponível. A falta de familiaridade atrapalha-me, em brincadeiras inocentes leio raiva e logo me apetece, como mãe de traquinas, separar as feras. Juram-me que é pura brincadeira, que as deixe estar, que entre bichos não se mete a colher, e eu acredito por não saber mais, apesar de se me escangalharem os nervos de qualquer maneira. Se me deixassem, seria moderadora: quero arrefecer o que escalda, levantar fervura no que não sai da mornidão, aquietar o que mexe muito, agitar a mansidão. Ainda bem que me deram gatos. 

domingo, 30 de outubro de 2016

Diferenças

Um casal de idosos caminha de braços dados. Enquanto dá passadas, o homem vai apreciando a paisagem, olhando em redor, e acaba tropeçando desastradamente em si próprio. O braço da esposa vale-lhe a salvação e não chega a tombar. Depois de o segurar e de garantir que o marido se mantinha em pé, logo puxou reprimendas como fazem as mães aos filhos crianças:
- Ó homem, tu não sabes ver onde pões pés? Não caminhas como deve ser? Não sabes olhar para o chão? - O homem, espantado, responde-lhe:
- Então hei de caminhar a olhar para o chão?! Eu tenho é que olhar para cima, para apreciar as coisas.
Seguiram caminho - eles juntos mais as diferenças irreconciliáveis. 

sábado, 15 de outubro de 2016

Santas e pecadoras

Os olhos de ambas brilham, húmidos de água benta, de tão santas e comovidas. Ai, as pessoas com necessidades especiais, os cancerosos, os pobres, os moribundos... tão maravilhoso é ajudá-los! Garantem que não há sentimento igual, derretem-se com o choro de gratidão, com a voz pedinte e com a fraqueza e o desamparo. É uma forma belíssima de ocupar o tempo livre, e no fim regressam a casa tão felizes! Contam que não há nada que as realize desta forma, nada se compara à grandeza de dar esmola. Por isso, quando alguém diz os deficientes, doem-se muito, porque todas as histórias lhes pertencem agora, fazem parte do clube, com a vantagem de poderem virar costas quando querem e seguir para outros caminhos - como, aliás, seguiram. Mas isso não importa. Já ganharam o seu lugar no paraíso, já têm histórias - que não lhes pertenceram jamais - para contar, e terão sempre esse trunfo na manga para atirar sobre a mesa quando alguém lhes disser que não são assim tão boas. E, mais importante, têm marcado no coração o sabor da fortuna, do privilégio e da boa sorte. Ainda bem que há miséria, é tão maravilhoso!

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Polivalência

Diz-lhes que terão que ser polivalentes se quiserem sobreviver no mercado: não se convençam de que só porque são contratadas para desempenhar a sua profissão, poderão cruzar os braços quando lhes pedirem mais. Não senhor: és padeira, mas vais ter que deixar o teu serviço para servir às mesas; és operadora de caixa, mas se for preciso arrumar o armazém é fechar o bico e obedecer; és vendedora de casas, mas se tiveres que lhes pintar as paredes há que arregaçar as mangas. Argumenta com todos os casos que conhece de gente que foi "testada", "posta à prova" e que conseguiu vencer e ser agraciada com um contrato e um ordenado. Elas ouvem e dizem que sim, claro que sim, quem não sabe?, temos que ser despachadas, desenrascadas, fazer de tudo um pouco, dar cartas, mostrar serviço. Pergunto-me se diriam o mesmo se, em vez da cardiologista, chamassem uma psiquiatra para lhes operar o coração; se fosse a secretária e não a engenheira a projectar a ponte por onde passam todos os dias; se a professora dos filhos deixasse de lhes dar aulas para ir limpar as casas-de-banho; se, enfim, em vez de deus viesse o diabo. Depois de exercitarem a polivalência com uma perna atrás das costas, hão-de se refastelar nos sofás e lamentar, enquanto jantam a ouvir os pivots de telejornal, que realmente neste país é só incompetentes. Nada: versáteis, não é?

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Os imprestáveis

Um conjunto de pessoas que se consideram solidárias, compassivas e generosas, na hora de escolher quem vive e quem morre, puseram de lado as emoções e elegeram os espécimes mais fortes. Justificam: precisamos de gente útil, forte, saudável, inteligente, que dê jeito, que preste serviço. Por que raio haveríamos nós de salvar os tolos, os miseráveis, os fracos, os que se prostituem, ou simplesmente os vulgares, que não têm talentos nem ambições? Com precisão e frieza cirúrgica, escolhem a dedo quem não merece o trabalho de ser salvo, e continuam as tarefas corriqueiras que as esperam sem mais pensar no assunto. Fiquei em silêncio. Finalmente percebi como é que se chegou ao ponto de construir um memorial em Berlim que nos lembrasse de como somos atrozes.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A culpa é das mulheres

Um médico de meia-idade, além de machista, considera que o pequeno negócio da esposa é coisa sem valor. Chega a casa primeiro que ela, acomoda-se no sofá e espera pelo jantar. Num dia menos bom, a esposa perdeu a paciência e, sem passar pela cozinha, foi sentar-se à sua beira. Então e o jantar?, perguntou ele. A mulher vai contando o episódio e desabafa as dificuldades de educar os seus rapazes para não serem como o pai. As outras mulheres ouvem e vão metendo pelo meio as suas próprias histórias, o meu faz tudo!, deixa lá que lá em casa também tenho um desses, era o que me havia de faltar aturar isso. Tentam chegar a um consenso, perceber os porquês, arranjar soluções; finalmente desvendam o mistério: a culpa é das mulheres, que não sabem educar os homens. Nós é que lhes facilitamos a vida, diz uma, nós é que os habituamos mal, concorda outra. Como se não bastasse o resto, têm agora o rancor pelas sogras que não educaram os filhos como deve ser, e por si próprias por não terem quebrado o ciclo. Nisto tudo, saem os homens como eternos coitados: não conseguem cozinhar, não conseguem limpar, não conseguem cuidar dos filhos, não conseguem conter impulsos, não conseguem entender sentimentos e agora também não conseguem pensar. Para sempre filhos de todas as mulheres, vão subindo na vida, chegando onde querem e dispensando o que não lhes apetece. Atrás, as mulheres: dissertando sobre a culpa, limpando-lhes as migalhas, as botas e o cu.