segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Kitsch

A grande memória que guardo d'A Insustentável Leveza do Ser é a de Sabina, da sua forma de se fantasiar e de interpretar o seu entorno. Tenho uma vaga ideia de compreender a descrição que Kundera faz das paixões de Sabina como deturpações do objeto: Sabina não amava a coisa, amava a ideia efabulada da coisa. 
Penso nisto constantemente, sobretudo quando me vejo diante de algo ou alguém que parece ser apenas uma ansiedade, um sonho, uma busca - não de si, mas de uma amálgama de coisas misturadas sem grande critério. Quase como se a cultura e a arte se tivessem transformado em publicidade: a pessoa quer uma infância de luta como a de Edith Piaf, com o entorno memorável de Sophia, a vida louca e boémia de Stevie Wonder, a improbabilidade de ascensão de Saramago, as amizades de Chico Buarque, a raiva de Nina Simone, o amor insano de Frida, a morte épica de Jesus e o legado de todos eles somados. Com essa lente, contam de si como quem pensa um epitáfio: perdoando fraquezas, fechando os olhos à vulgaridade dos dias e esquecendo que a Terra gira sem nós. 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A propósito de destrambelhar

Pergunta-se, enquanto empurra um carrinho no supermercado ou arranja o cabelo no cabeleireiro, se as outras mulheres não estarão todas, em maior ou menor grau, a pensar a mesma coisa: aqui está o espírito brilhante, a mulher de mágoas, a mulher de alegrias transcendentes, que preferia estar noutro lado, que aceitou desempenhar tarefas simples e essencialmente ridículas, examinar tomates, sentar-se com a cabeça debaixo de um secador de cabelo, porque essa é a sua arte e o seu dever. Porque a guerra acabou, o mundo sobreviveu e nós estamos aqui, todas nós, constituindo famílias, tendo e educando filhos, criando não apenas livros ou quadros, mas todo um mundo - um mundo de ordem e harmonia onde as crianças estão em segurança (se não felizes), onde homens que viram horrores inimagináveis, que actuaram corajosamente e bem, regressam a casa ao encontro de janelas iluminadas, perfume, travessas e guardanapos.

As Horas, de Michael Cunningham

Destrambelhar

Eu comento que a minha casa está um pandemónio e ela responde que é porque sou uma destrambelhada: como agora estou desempregada, todos os dias limpo a casa e vou às compras! Nossa senhora, penso eu, ponho uma cara de choque e compaixão e ela explica que não é sacrifício, que faz com gosto. Não tenho nada para fazer também, conclui. Invejo a sorte daqueles que, nada tendo para fazer, se põem com gosto nas lides domésticas e na bricolage. Tivesse eu um assomo desses por mês, durante uns minutos, e já ficava satisfeita. Aborrece-me tanto gastar tempo a esfregar panelas, a estender e dobrar roupas, a descascar batatas, a esfregar o chão. Por isso evito fazê-lo: estando o absolutamente básico assegurado, sigo para outros caminhos desenrascando no resto. Fui criada com raparigas cujos pais lutaram para que as filhas vingassem, isto é, se tornassem bons partidos. Aprenderam a fazer as cabidelas, a engomar camisas como deve ser, os truques e dicas para um forno imaculado, a escolher a indumentária certa para baptizar os filhos. Quando criança, ouvia dizer que os meus pais estavam a fazer fraco serviço, que graças ao descuido deles me tornaria numa mulher sem fé nem préstimo. Tinham razão, acabei na heresia e com talentos que não põem a casa a brilhar. Visto uma camisa mal engomada, guardo um almoço suficiente na mala, e vou à minha vida sem delegar para deus o que as minhas pernas são capazes de fazer, destrambelhada e destrambelhando alegremente pelo caminho. 

domingo, 2 de julho de 2017

Cansaço

Viviane está muito perto dos quarenta anos e, dependendo do momento, ora exibe a provecta idade como prova da sua presumida sensatez, ora finge que o passar do tempo lhe pesa como duas dezenas. Simula um revirar de olhos, impaciente e agoniado, põe a voz aguda e fala com trejeitos de repulsa:
- Com a idade, uma pessoa perde paciência para certas coisas. Não estou para aturar crianças. 
No entanto, quando a tomaram como mãe de uma jovem mulher, ofendeu-se com a burrice da senhora:
- Mas você acha que eu tenho idade para ser mãe de uma matulona destas? Por amor de deus, não deve estar a vê-la bem. - E virando-se para a amiga, que logo correu a desculpar-se pela machadada no ego: - Eu sinto-me bem na minha pele. Mas se tu pensas que pareces ter dezoito aninhos, tira daí a ideia.
Bem gostava de casar - às vezes lá desabafa que o namorado já garantiu que não casa e que ela, assim sendo, não está para se humilhar - mas não perde uma oportunidade para se queixar de boca cheia:
- O José lá anda às voltas na quinta, a arranjar tudo para eu ir morar lá com ele. Que chatice, não queria nada. Estou tão bem na minha vida. Ele zanga-se comigo quando diz a nossa quinta e eu o corrigo: a tua quinta. Mas eu já lhe disse que não quero nada daquilo. Por mim, ficava como estou que ficava muito bem.
- Então e filhos?
- Lá parece que vou ter que os ter. Mas também não queria muito. Pirralhos aos berros na minha casa, a sujarem-me as coisas? Não! Eu gosto de disciplina, comigo é assim. E ter filhos para quê? Só de pensar naquilo que se vê, andar uma mãe a sacrificar-se para depois ter desgostos.
Na verdade, em dias de mansidão lá confessa que adoraria ter uma carrada de filhos, talvez tenha sorte e ainda vá a tempo.
Sentindo-se inferior aos demais - e sente-o frequentemente - ora rebaixa quando poucos ouvem, ora lambe botas diante dos inimigos. Mas o que mais incomoda Viviane são as mulheres - essas pegas que andam a pedi-las:
- Uma mulher de bom gosto não se apresenta assim. Depois queixam-se. Depois aparecem violadas. Depois não há homem sério que lhes pegue. Uma mulher em condições não se comporta assim. Ela é caprichosa, é arrogante, é mimada, é burra, não sabe o que diz.
Na verdade, Viviane tenta matar o tempo com dietas, porradas de ginásio, químicos na pele e nos cabelos, e roupas de adolescente que põem à vista as rendas com que protege a intimidade. O homem que lhe pegou tem uma queda por estrangeiras exóticas - diz ela que prefere nem saber para não se estar a chatear - e, volta e meia, envolve-se em discussões para as quais não tem argumentos e que termina com:
- Esquece, se não consegues entender o que eu te estou a tentar dizer não vale a pena eu cansar-me.
Soubesse ela que não há coisa que canse mais do que o veneno correndo nas artérias.

Inspiração

Pedem-lhes que enumerem as fontes de inspiração, querem saber o que está por trás do verso, da melodia, do ângulo, das cores, do jeito, da máscara. Espanto-me com as respostas: o que os inspira é uma certa rua na Córsega, aquela iguaria degustada numa remota aldeia tailandesa, uma boutique encavalitada nas ruas de Paris, o safari africano que ofereceram a si próprios pelo trigésimo aniversário. Que fariam estas pessoas se vivessem numa aldeia escondida no fundo de um vale? Caminhariam secos e vazios até ao dia da morte? Não haveria nada no céu, na árvore, na terra, no cheiro de uma flor, no barulho de uma voz, na rugosidade de um pedregulho que os acendesse? 
O que me inspira é a minha insignificância. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Onde foi a poesia?

Depois de uma vida a sofrer tanto as alegrias como as tristezas, a achar poesia em tudo quanto era lugar e a reparar no que me rodeava com lentes mais fortes do que os meus olhos aguentavam, alguma coisa se calou. Vivo sossegada, sem grandes exaltações, durmo bem e tenho saúde como nunca antes. Das minhas alegrias, fazem parte coisitas quotidianas como o bom tempo, que seca a roupa depressa. A tragédia já não me parece poética e sofrível, mas engraçada. De tanto rir para espantar males, aprendi a procurar o absurdo e o risível. Foram-se os poemas, veio o contentamento. Lembro-me de uma prece que já não sei onde ouvia: deus nos livre da mediania. E lembro-me de um lamento que ouvi há muitos anos sobre a vida ser uma chatice:
- Olha aquela mulher que vem a passar, por exemplo. - E era uma mulher jovem mas gasta, de fato-de-treino e cabelo mal amanhado, carregando sacos de mercearias. - A vida dela deve ser miserável também.
E eu achei uma parvoíce e retorqui que se espera demais da vida, que a vida não tem que ser épica, grandiosa, espampanante, que ser feliz pode ser só ir comprar mercearias com pessoas de quem gostamos. Ia dizer que estou bem, mas que tenho saudades da poesia. Ocorreu-me mesmo agora que se calhar rir e reparar na mediania também pode ser poema.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

História

É com fascínio e ternura que assisto à redescoberta do que antes de mim tomou lugar. Se em tempos passados, embriagados pela ideia de progresso, se jurou que o destino da humanidade era o gradual melhoramento até à perfeição, hoje encontro dúvidas em demasiados rostos - incluindo no meu. Ser posto no mundo sem saber que mundo é este, será talvez meio caminho andado para a repetição dos erros. Não gosto de falar em natureza humana e misturar princípios morais; entendo por natureza humana a posição dos órgãos, a função dos sistemas, o esqueleto, os sentidos, a matéria. Falar de ódio ou honestidade, metaforizar a espinha dorsal, trocar sentidos por sentimentos, é coisa de que procuro abster-me por não saber que chegue. Mas por que haveria a nossa espécie de caminhar, inteira, para lugar algum? Seremos parte de um todo pensante, superior em hierarquia, capaz de guinar para onde quiser, alheio às partes individuais que o compõem? Será a própria humanidade um bicho racional, constituído por pedaços soltos? 
Encontro a crença no caminho do aperfeiçoamento nas mais variadas ocasiões. Isto tem 30 anos; vê lá, fazer-se uma coisa destas naquele tempo...! - como se o passado ficasse votado à inferioridade, à rudeza, à ignorância. Como se cada geração correspondesse a um mais avançado estádio evolutivo. Adivinharia Platão que no século XXI, o século da avançada aldeia global, haveria gente a temer cor de pele, idioma, rezas e adorações? 
Ainda assim, vou regando a fé no aperfeiçoamento. Ajuda a subir quando os santos descansam do auxílio que deram na descida. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Regresso

Regresso ao José Mattoso para recapitular o princípio. Em pouco tempo, a mente fervilha e o corpo esquece que, lá fora, tudo arde.
Leio sobre o clima e pergunto-me durante quanto mais tempo serão válidos os ensinamentos acerca do assunto. Leio sobre a indústria têxtil, tão velha e persistente, e espreito os meus fios de lã. Leio sobre a pobreza do solo português e a sua fraca vocação agrícola e duvido, enquanto espreito as árvores de fruto que há tantos anos rasgaram a terra preta. Leio sobre as casas de pedra e de taipa e reparo no muro irregular de pedregulhos pegados uns nos outros. Penso nos meus fios de algodão, nos panos de linho, nas sementes que ficaram depois de devorar os pêssegos, nas paredes de pedra pobre da casa. Tento voltar ao começo. Cresci no meio dos piores presságios, convencida de que teria que inventar qualquer coisa grandiosa para subsistir. Mas vejo que não: invenções grandiosas servem (será que sim?) para dar alimento à imaginação. Para subsistir, não invento - descubro. Hoje procuro as respostas como quem busca um tesouro enterrado - velho e esquecido, mas de esplendoroso valor.

Agosto de 2016

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Esforços e encargos

Desde que comecei a sair de casa demasiado cedo e a chegar demasiado tarde, tenho sido alvo de curiosidades. Como é que durmo, como é que almoço, como é que janto, como é que mantenho a casa em ordem, será que passo os fins-de-semana como uma escrava a preparar a semana seguinte, e por aí adiante. Além de perguntas, também sou alvo de agoiros e péssimos pressentimentos: a minha vida há de ficar uma desgraça, sem qualidade, divertimento ou descanso, não hei de resistir muito tempo, o mais provável é que no fim se veja que nada ficou bem feito e que todo o meu esforço terá sido em vão. Na verdade, não fossem as saudades de casa e de quem a partilha comigo, estaria tudo mais que bem. Tudo o que precisa de ser feito é feito, com mais ou menos tempo para engonhar, e há sempre tempo para o que importa.
Depois dessas perguntas, surge a preocupação com o homem com quem vivo: como é que ele come agora que não estás? Deixas a comida dele no congelador ou fazes quando chegas à noite? Então? Ele tem que ir comer fora? Estivesse acompanhada de gente vinda de terras de outros costumes e presumir-se-ia que me apaixonei por um enfermo, um desgraçado que votei ao abandono e que, por muita vontade que tenha, não encontra meio de se valer a si próprio. Ainda não experimentei ficar espantada com a pergunta, respondo naturalmente e recebo em troca uma expressão de surpresa e agrado. Dizem-me que tenho muita sorte, que é bem bom que me tenha calhado um que se desenrasca, que vai fazendo as suas coisinhas e que me ajuda. Não fico ofendida, não fico cheia de vontade de gritar o feminismo, como se fosse evangelho que pudesse pregar, nem me regozijo com as considerações alheias acerca da minha boa fortuna. Acho graça. Tem a sua piada que me presumam senhora dos meus iguais e que vejam no meu esforço o encargo dos outros. A propósito disto.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Corpo humano

Lembro-me agora de uma chefe que tive que me tratava mal e que frequentemente desprezava a minha inteligência: pensa! pensa!, quando lhe fazia uma pergunta. Na verdade, volta e meia reconhecia-me mérito intelectual e, para casar as contraditórias opiniões a meu respeito, concluía: enches o teu cérebro com coisas sem interesse e o que importa fica para trás. Não lhe sabia explicar que era cansaço, desconcentração, que não era inaptidão cognitiva. Também não sabia explicar a ninguém como é que eu, que tanto adorava ler, por vezes perdia uma manhã inteira a tentar ler um parágrafo e acabava por faltar a exames por causa disso. Ou como é que durante a condução por vezes me falhavam pormenores que eram óbvios para todos os outros. Ia à farmácia pedir drogas que agilizassem o meu raciocínio e a minha capacidade de concentração mas foi sempre sol de pouca dura. Será a ansiedade? Será sono a menos? Será que é por não amar o que estou a fazer? Talvez precisasse de mudar de vida, de virar costas a tudo e procurar outros caminhos. Não. Afinal é apenas hipotensão crónica, mas só metade do corpo desmaia. Tantos anos a treinar o palato para apreciar os alimentos por aquilo que eles são e afinal os pedidos eram outros. O corpo é que sabe. O corpo é que paga. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Certezas

Sobre tudo tantos têm opiniões tão arranjadas e prontas a entregar, que quase me sinto rodeada dos mais lúcidos e brilhantes cientistas. A cada diálogo surge uma afirmação redondinha, perfeita, bem acabada, capaz de resumir, em meia dúzia de palavras, as causas e os resultados de todas as coisas. De tudo vou dar a comer aos meus filhos; aliás: faz-lhes bem experimentarem de tudo na infância. Alguém duvida, franze o sobrolho. Tudo? Isto que digo é mesmo assim: as crianças têm que provar de tudo para conseguirem desenvolver e não sei quê do palato e das texturas. Rio para dentro, imaginando qual seria a reação destes pais se os filhos quisessem expandir as possibilidades do palato comendo cachorrinhos e escaravelhos, como há quem faça noutras terras. Todas as prostitutas são doentes mentais, porque só assim pode uma mulher vender o corpo. Então e a miséria? Nariz para cima, óculos ajeitados: há sempre uma alternativa, sempre. Mas já leste os estudos sobre isso? Não, mas também nunca é preciso, porque se conhece sempre alguém que tem um amigo que disse e fez, está o caso comprovado. Além destas expressões grandiosas sobre os caminhos de cada um, há as corriqueiras, que me parecem ser resultado de um empirismo muito enferrujado, mal exercido e anunciado por mero impulso. São os pobres que mais praticam a caridade, os homens têm dificuldades com o compromisso, as crianças são cruéis, os gatos traiçoeiros, e assim se espreme o que nos rodeia até tudo caber em gavetinhas e a casa ficar arrumada. 
Apesar de todas as coisas que me ocorrem quando ouço uma sentença deste género, surgiu-me o palpite de que isto possa ser um esforço, tão humilde e falível como o que faço quando escrevo, de perceber. Mas quanto mais tento perceber seja o que for, mais hesitante me torno. Talvez por isso tenha acumulado, ao longo dos anos, um enorme pavor de abrir a boca para opinar. Perante as certezas alheias sobre tudo o que o nosso corpo possa alcançar, baixo os olhos e dou uma guinada para a banalidade. Falo do tempo, da comida, do cansaço, da gula. Tem resultado sempre, como resulta atirar milho aos pombos.

sábado, 19 de novembro de 2016

Liberdade

Arriscaria dizer que somos nós os nossos próprios carrascos. Todos os grilhões que arrastamos todos os dias são nossos, apesar de a todos baptizarmos com outros nomes. Talvez a liberdade seja compreender que ser inconsequente é, na maior parte das vezes, afinal a maior das prudências.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Os alarmistas

A desvantagem do conhecimento acabado de arrumar é que goza do cepticismo de todos os que ainda não souberam da novidade. O que deveria ser humildade, curiosidade, um certo pudor até da própria ignorância, dá lugar à arrogância esparramada, ao conselho que jamais foi requisitado, à ilusão de sabedoria que urge demonstrar. O açúcar refinado faz mal? Paranóia. Meditar tem efeitos positivos sobre a saúde? Feitiçaria. O nível das águas do  mar vai subir? Discurso apocalíptico. Acaba-se a conversa e seguem caminho os sábios, tão seguros de si mas tão confusos com os cataclismos que tomam lugar - dentro e fora do corpo. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Hoje

É o dia em que se regressa ao sótão onde ficaram esquecidas as misérias, escondidas debaixo do mais belo manto, destinadas à putrefacção. Afinal precisamos ainda de rebuscar alegria, calma, sobrevivência, tal como afinal não levamos no bolso assim tanta sabedoria. Há que sacudir do corpo todos os demónios que nos deram a engolir, que respirámos, que ouvimos, que vimos, que entraram pela nossa pele. Expurgar o medo e a ignorância e arregaçar as mangas, mergulhar as mãos na terra, chorá-la, para enterrar e para fazer brotar. 
Esperemos que a pele caia morta. Esperemos que renasça.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Moderadores

Eu, que nunca achei graça a felinos, vejo-me agora de coração aberto e colo disponível. A falta de familiaridade atrapalha-me, em brincadeiras inocentes leio raiva e logo me apetece, como mãe de traquinas, separar as feras. Juram-me que é pura brincadeira, que as deixe estar, que entre bichos não se mete a colher, e eu acredito por não saber mais, apesar de se me escangalharem os nervos de qualquer maneira. Se me deixassem, seria moderadora: quero arrefecer o que escalda, levantar fervura no que não sai da mornidão, aquietar o que mexe muito, agitar a mansidão. Ainda bem que me deram gatos.